domingo, 21 de dezembro de 2025

Contribuição À História Da Educação Petropolitana: Estado, Nacionalização E Sistema Educacional

 


Contribuição À História Da Educação Petropolitana: Estado, Nacionalização E Sistema Educacional


Oazinguito Ferreira da Silveira Filho


15/11/2010

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digitação utilizada para inclusão no site:

25/01/2010


Ensaio escrito em 2002


CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO PETROPOLITANA: ESTADO, NACIONALIZAÇÃO E SISTEMA EDUCACIONAL

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho

 

CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO PETROPOLITANA: ESTADO, NACIONALIZAÇÃO E SISTEMA EDUCACIONAL

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho, associado titular, cadeira n.º 13, patrono Coronel Amaro Emílio da Veiga


“…Não escapará, decerto, às luzes superiores de v. Exa. Quanta influencia isso (a criação de uma escola de primeiras letras) pode ter sobre os costumes, e quanto importa ir destruindo o uso exclusivo da linguagem alemã.”(Fernandes Pinheiro, Presidente da Província do Rio Grande do Sul, 1825, p.274, in Willens, Emilio, 1946, Brasiliana, INL/MEC)


Este fragmento de documento do então Presidente da Província do Rio Grande do Sul, espelhava o temor que os brasileiros possuíam já em 1825 pela presença do imigrante europeu, principalmente do alemão no território brasileiro. Uma rejeição clara ao processo de imigração que se iniciava em terra brasileira, principalmente em uma região onde não se acusava forte presença escravista, não estando portanto sujeita a lenta política de organização do processo de produção brasileira tendo por base a mão-de-obra do imigrante em detrimento da substituição do tradicional escravismo.

O assunto em discussão neste ensaio, não é somente a questão da “política de nacionalização” do ensino local, isto é, petropolitano, mas também a presença do Estado brasileiro na área de educação em Petrópolis no século XIX, assim como a questão da “pseudo” ameaça política que a imigração pudesse oferecer à integridade do Estado Imperial brasileiro ou de sua sociedade, possibilitando uma intervenção do Estado na questão educacional na região de colonização e imigração alemã em Petrópolis.

Outra questão que também será abordada é a presença do ensino privado e de suas possíveis características inovadoras, assim como de um projeto de ensino técnico gerado em uma espécie de cooperativa pelos colonos em Petrópolis.

INTRODUÇÃO

De um modo geral quando abordamos a história da educação observamos que a temática “intervenção” do Estado, ou como pode tecnicamente ser designada, “ingerência” nas questões da educação pública não é uma novidade histórica.

Lorenzo Luzuriaga já apontava sua presença desde o século XVI na Europa. Mas se compreendido precisamente como realmente uma ingerência do próprio Estado, neste caso os registros históricos podem ser mais precisamente avaliados a partir do século XVIII, sendo estes em sua maioria relacionados à evolução dos processos político-sociais no contexto da elaboração dos Estados Nacionais contemporâneos e na construção da instrução pública a partir da Revolução Francesa (Luzuriaga, 1959).

No Brasil, a origem do processo educacional repousa no ensino confessional “conversor” que foi desenvolvido pelos jesuítas. Porém, observamos que, a partir da segunda metade do século XVIII, o estado português (juridicamente estruturado pelas Ordenações Filipinas) realiza sua intervenção na educação, tendo por questão o “controle da sociedade colonial” e sendo sua base o estabelecimento do Alvará Régio de 1759 (28/06), que extingue todas as escolas e estabelece um novo regime.

“Os jesuítas[2] apoderados do ensino da mocidade em que infundiam superstição e prejuízos, e a quem regiam com religiosa disciplina, senhores por imediato influxo dos sentimentos do trono da administração nos tribunais e até no recinto doméstico dos particulares conservavam cuidadosamente o seu monopólio, e com muitos, e espalhados [colégios] no Reino e com grande número de criaturas suas [des]tinadas a perpetuar a escravidão científica[3] repeliam a ocorrência de outros mestres, e apenas em alguns pequenos lugares haviam clérigos, e seculares, que ensinavam com o agradecimento de seis vinténs por mês os de Gramática Latina, e de três vinténs os de ler, sendo porém igual a doutrina por que os mestres ensinavam o que nas mesmas escolas jesuíticas tinham aprendido. E vemos com tão débeis socorros, sobressair muitas vezes o Gênio Português o que lhe dá direito a perpétuo louvor.

[…]

Expulsar os jesuítas destina-se parte de suas causas, e rendimentos para o progresso das letras mas não tiveram aquela elevação, que se lhe devia. Conheceu o marquês de Pombal a necessidade de estabelecer Escolas Menores[4], e a este fim deu as providências da Lei de 28 de junho de 1759[5]. Nomeou a seis de julho por Diretor dos Estudos ao Principal Almeida, que deu as Instruções confirmadas por Alvará de 11 de janeiro de 1760 em que é contemplado o Ultramar com seus comissários mas havendo falta no pagamento dos mestres franqueava licença aos particulares pagos pelos discípulos, e não provia as cadeiras que vagavam.”

(Plano de renovação do ensino no Brasil elaborado por José Albano Fragoso, desembargador do Paço e deputado da Mesa de Consciência e Ordens, convocado pelo príncipe regente. Conjunto documental: Coleção de memórias e outros documentos sobre vários objetos

Notação: códice 807, vol. 20

Datas-limite: 1768-1869 – Arquivo Nacional)

Semelhante intervenção, narrado por José albano Fragoso, Estadista português, nascido em Lisboa, que se destacou como principal ministro no reinado de d. José I (1750-1777) , nada mais é, em verdade, que uma discussão política sobre a questão da ascendência do poder no território colonial. O Estado português não admitia o predomínio dos jesuítas e de sua influência na sociedade local, manipulando ideologicamente os coloniais (Novais, 1979).

Assumindo o controle da educação colonial, o poder real português reestrutura as modificações, estabelecendo primeiro a figura do “diretor dos estudos”, e, posteriormente à “reforma pombalina”, com o processo de emancipação brasileira, passa a formação de quadros administrativos nacionais na constituição de uma “nova” elite burocrática, que substituísse a administração lusitana enraizada no mesmo período colonialista.

O século XIX, para o mundo, foi o processo de “publicização e secularização” do ensino. No Brasil, a educação seguia sob a influência da religião, com respaldo constitucional fornecido pela aliança da Igreja com o “novíssimo” Estado brasileiro (Gallo, 1993). Em linhas gerais, a composição seguia a regulamentação do ensino estatal, deixando o sistema privado por sua própria conta.

Este “ensino estatal” estava dividido em duas esferas de administração: a primeira era a nacional, que se responsabilizava pelos níveis, tanto do primário como do secundário, na área da Corte, e também pelo nível superior por todo o país; e o segundo era o provincial, que respondia pelos níveis primário e secundário nas Províncias do Império, segundo Gallo.

Muitos pesquisadores desconhecem que o processo educacional oficial na região serrana de Petrópolis, não possui suas origens em estruturas confessionais, ou mesmo privadas, mas sim foi uma “ingerência” de base estatal. Isto ocorreu devido à preocupação do Estado, durante o Império, com a organização da educação em áreas de forte assentamento de imigrantes ou de colonização próximos à Corte, uma preocupação geopolítica do governo do Império e do governo da Província.

Fato que nos é desconhecido até o presente momento, e que se apresenta como processo corriqueiro nas demais regiões interiores do Brasil, são as comuns visitas às fazendas dos exigentes frades-mestres, ou tios letrados (Freire, 1936). Em nossa região serrana, principalmente na área da Fazenda do Córrego Seco e de tantas outras que compunham originalmente a citada região, não foram encontrados até o presente momento, documentos ou mesmo quaisquer cartas que citassem este procedimento, que é característico das origens do Brasil Colonial, na era dos seiscentos e setecentos, principalmente se recorrermos a estudos considerados clássicos locais, como os de Frei Estanislau (Schaette OFM, 1953).

Nem mesmo o nosso histórico Padre Correia com seu maravilhoso universo de produção artesanal-industrial de ferraduras ou agrícola (frutas), que abastecia toda a região das Minas e/ou da Baixada Fluminense, deixou documentos, ou ocorreram relatos de sua preocupação, a não ser com o do batismo de seus escravos.

REGISTRO OFICIAL

O primeiro registro data de 1840, mais precisamente para a região do Itamaraty, e foi de iniciativa pública do Império por parte do Visconde de Baependi, que autorizou (Rabaço, 1982), a criação de uma escola “de primeiras letras”, alfabetização em português para os filhos dos alemães trazidos por Koeler do Rio de Janeiro.

Uma iniciativa como de tantas outras que já se haviam estabelecido no sul do Brasil. Este fato era um indicador de que estes primeiros imigrantes chegavam de regiões rurais da Alemanha, em sua maioria vilarejos, sem qualquer assistência cultural, conforme a tradição predominante nas mesmas áreas ( Willens, 1946 ). Devemos observar que somente áreas urbanas alemães de comportamento mediano demográfico conheceram a educação pública de caráter estritamente religiosa e destinada ao povo em geral, com aulas ministradas em alemão, as chamadas escolas primárias de alfabetização para leitura da Bíblia. Esta seria uma educação pública que foi preconizada por Martinho Lutero, e de estrutura efervescente mente nacionalista. Segundo Luzuriaga, observamos que a instrução pública repousa no movimento da Reforma Protestante, que tem a escola como lugar da “guerra contra o demônio”. Porém, outros grupos de imigrantes ou colonos na região serrana, que chegaram, já eram alfabetizados e exigiam escolas para seus filhos (Relatórios coloniais da Província).

Devemos lembrar que o Visconde foi posteriormente “camarista” oficial de Pedro II, o que estabelece concisamente uma “(pré)ocupação” existente no próprio Imperador, ainda menino, com o processo educacional brasileiro, fato que se confirma por documentos e depoimentos.

É necessário também destacar que estes imigrantes foram os mesmos chegados a bordo do Justine à caminho da Austrália, e Koeler, habilmente conseguiu manipular por ações do Governo Provincial, conduzindo-os para as obras de melhoramentos da estrada para a serra, autorizadas pelo governo, e concluídas em 1839.

Foram 147 pessoas, que, após a conclusão da mesma obra, estabeleceram-se com autorização da Província, por intermédio do próprio Koeler, na região do Itamaraty. Segundo J. H. Rabaço,estes imigrantes “foram testemunhas inconscientes do Decreto Imperial que transformou o Córrego Seco em Petrópolis”.

EDUCAÇÃO NA IMPERIAL COLÔNIA

O primeiro núcleo escolar definitivo e oficial de Petrópolis foi criado especificamente para meninos alemães que haviam chegados a partir de 1843, com idade de sete a doze anos de idade. Mais tarde, este processo estendeu-se por mais oito escolas, sendo seis para meninos e duas para meninas.

Este momento único na política governo imperial, surgiu como idéia, segundo informações presentes no Relatório da Diretoria da Colônia, do próprio Aureliano Coutinho, presidente da Província (Rabaço, 1982), em novembro de 1845, quando de sua visita a Petrópolis:

“as famílias de colonos que foram me recepcionar além de solicitarem para que apressasse sua nacionalização, pediram escolas para a educação de seus filhos além de párocos ou pastores de suas religiões”.

O diretor e conseqüente Inspetor da Instrução Pública designado foi o próprio Major Koeler, em 1846. Fator este diferencial do das demais províncias brasileiras do período, onde um estrangeiro não receberia posição tão destacada no governo da Província. Semelhante conservadorismo poderia ser observado por receio do comportamento nacionalista dos estrangeiros e também por preconceito dos próprios nacionais.

Talvez possamos verificar nesta condição política, o componente de maior diferença para com o processo educacional público de imigrantes no Brasil na primeira metade do século XIX, mais precisamente na região fluminense. Isto se procedermos à comparação com as informações dispostas por Emílio Willens, detentor do maior estudo sobre o processo de aculturação dos alemães em nosso território (Willens, 1946).

Outro fato deveras importante foi também o envolvimento da presença integrada de D.Pedro e do mordomo Paulo Barbosa no projeto de construção do Palácio de Veraneio, no da cidade e no da organização e constituição da colônia.

Koeler como diretor da Colônia, ainda no primeiro semestre de 1846 impulsiona o funcionamento das primeiras salas de aulas que ocorreram no próprio Quartel das Obras Públicas, sendo que na ocasião ocorreu a matricula de aproximadamente quatrocentos filhos de colonos e que foram atendidos por professores bilíngües especialmente contratados, três católicos e três protestantes (Rabaço, 1982). Podemos neste propósito observar também a preocupação com a presença religiosa na comunidade, onde choques deveriam ser evitados na formação das novas gerações. Assim como processar com a presença de professores bilíngües, de um lento processo de acomodação cultural dos descendentes ao modelo cultural nacional.

O ensino era obrigatório e de condição básica, segundo disposto no próprio regulamento da Imperial Colônia e que fora aprovado pelo Governo Provincial. Todas as unidades locais eram sustentadas pela então criada Caixa de Socorros da Colônia destinados quase que exclusivamente, aos filhos de colonos que chegaram a partir de 1843.

Pela interpretação de Rabaço, ocorria a obrigatoriedade do pai enviar o filho a escola pelo menos por três vezes na semana, caso contrário ocorreria uma multa que seria paga a favor da criada Caixa de Socorros.

Semelhante medida, contrariava o hábito cultural herdado por estes da maioria das sociedades rurais européias de tradição feudal, na qual filhos faziam-se presentes na agricultura doméstica com seus pais objetivando aumentar a produção familiar, compensando a carência de braços no sistema produtivo.

Mas, pelo que observamos esta obrigatoriedade de três dias, permitia com flexibilidade a combinação do hábito cultural familiar com o desenvolvido processo de instrução básica. Este procedimento, segundo observado inaugura um precedente oficial que contrasta com de outras regiões colonizadas por teutos no Brasil, segundo pesquisas ( Willens, 1946).

Conforme registros, Rabaço ainda observou o rigor da fiscalização de Koeler, originaria de sua formação germânica, que resulta na penalização e demissão de professores nas áreas onde ocorreram problemas disciplinares considerados de gravidade.

O ENSINO BURGUÊS

Quando da apresentação de pesquisas acadêmicas, na área de educação, mais precisamente sobre o processo histórico educacional ocorrido em Petrópolis no século XIX, muitas teses e interpretações ganharam direção distinta, da real condição que historicamente se apresentou.

Estas consideram como única a presença de uma “educação tradicional” nos moldes formais de base européia, exemplificado pelo Colégio Kopke, que se destacou na apresentação historiográfica petropolitana pela coleção do Centenário Comemorativo. Em realidade o Kopke foi o primeiro colégio da região de iniciativa privada e que seguia a linha pedagógica oficial na questão curricular, esta sim de características européias. Mas não por ser seu proprietário especificamente um europeu, como também nada que conduzisse a um enquadramento com um modelo de ensino formal, como o desenvolvido na Corte e que se desenvolveria a partir de 1848 em Petrópolis (Sodré, 1937).

O Colégio Kopke, muito bem situado na Rua Conde de Nassau, era caracteristicamente um internato destinado aos filhos da elite da época, principalmente de industriais e comerciantes, que acorriam a matricular seus filhos na serra. O Colégio pela sua importância possuía representação inclusive na Corte, com escritório comercial.

Outro fato que proporciona relativa importância para o mesmo foi a presença cada vez maior de diplomatas com suas famílias na cidade o que também atraía os demais representantes e familiares na Corte.

Dirigido por Henrique Kopke, o estabelecimento fornecia o ensino de línguas como o francês, alemão, inglês e o clássico latim; além do ensino de matemática elementar, geografia, história e na área técnica, os alunos aprendiam escrituração e contabilidade comercial, o que denunciava uma especificação do ensino mercantil presente no período e que consistia em uma novidade para um colégio privado.

Semelhante capacitação tornava-se necessária para os que seguiam direto para o bacharelado na Corte ou mesmo os que viessem a assumir os prósperos negócios dos pais. Poderíamos até quem sabe, considerar para a época como uma formação a nível técnico, que somente se desenvolveria com a criação dos cursos do Liceu de Artes & Ofícios na cidade do Rio de Janeiro.

O Kopke era um internato, uma instituição educacional ideal e característica do século XIX (Áries, 1978), e em seu caso ainda de maior realce por se localizar na serra, sob um clima e condições “agradáveis” para os jovens, em uma cidade que preconizava fortes relações européias em seu ‘modus vivendis’.

Ocorria a probabilidade de que Kopke talvez houvesse estudado na Alemanha em uma “escola latina”, como eram denominados os cursos de ensino secundário e de formação humanista cujos parâmetros serviam basicamente a burguesia alemã com aulas em latim e não em alemão como a escola primária pública de base religiosa reformista.

Entre os professores de sua escola constatamos nomes que se destacaram no processo educacional do século XIX, como a de Calógeras, Paixão, Faletti entre outros também famosos na Corte e com presença em diversos estabelecimentos de renome.

Assim, confirmamos o fato de que neste estabelecimento ímpar ocorreu a implantação de um modelo de ensino, em parte idêntico ao que vigorava nas instituições da Corte na primeira metade do século XIX. Ensino de tradição e similaridade com metodologia e princípios franceses, mesmo em uma época onde o domínio inglês se fazia presente. Mas com currículo adaptável às realidades de sua clientela. Um ensino destinado a formação dos filhos da burguesia nacional.

Mais tarde, com a fuga da elite carioca para Petrópolis em seu veraneio “forçado” resultante das questões sanitaristas, ou pelo modismo implantado pela família imperial, mais precisamente na década de 50 do século XIX, muitos destes professores oriundos do Kopke, também criaram seus próprios estabelecimentos.

Em primeiro constatamos o caso de João Batista Calógeras (1857), que no mesmo período lecionara no Colégio Pedro II; e posteriormente Falleti e José Ferreira da Paixão, que foi “brindado” com uma visita oficial ao seu estabelecimento pelo imperador em 1879, fato amplamente divulgado pelos jornais da Corte no período. Este fato conduziu o Colégio Paixão a destacar-se entre os demais com um esquema de marketing único para um colégio da época, publicidade presente nos jornais além da menção gratuita nas colunas dos jornais do período.

Janeiro, Editora Zahar, 1978;FURTADO, Celso, Formação Econômica do Brasil, Coleção Brasiliana, 1963;FREIRE, Gilberto, Casa Grande & Senzala, Petrópolis, Editora Vozes, 1980;RABAÇO, José Henrique, História de Petrópolis, Petrópolis, IHP/UCP, 1982;SODRÉ, Alcindo, in Trabalhos da Comissão do Ministério da Educação para o Centenário da Cidade de Petrópolis, Petrópolis, PMP, 1937; volume 2 e 5WILLENS, Emilio, A Aculturação dos Alemães no Brasil, Rio de Janeiro , Coleção Brasiliana/MEC (Livraria JO), 1946.NOVAIS, Fernando A., Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), São Paulo, Editora Hucitec, 1979;LUZURIAGA, Lorenzo, História da Educação Pública, São Paulo, Editora Nacional, 1959.

ARTIGOS, TESES E DOCUMENTOS:

KUJAWA, Henrique Aniceto, O Movimento dos Monges Barbudos, tese, Porto Alegre, UFRGS, 2000;SILVEIRA FILHO, Oazinguito Ferreira, 80 anos de educação em Pe

Janeiro, Editora Zahar, 1978;FURTADO, Celso, Formação Econômica do Brasil, Coleção Brasiliana, 1963;FREIRE, Gilberto, Casa Grande & Senzala, Petrópolis, Editora Vozes, 1980;RABAÇO, José Henrique, História de Petrópolis, Petrópolis, IHP/UCP, 1982;SODRÉ, Alcindo, in Trabalhos da Comissão do Ministério da Educação para o Centenário da Cidade de Petrópolis, Petrópolis, PMP, 1937; volume 2 e 5WILLENS, Emilio, A Aculturação dos Alemães no Brasil, Rio de Janeiro , Coleção Brasiliana/MEC (Livraria JO), 1946.NOVAIS, Fernando A., Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), São Paulo, Editora Hucitec, 1979;LUZURIAGA, Lorenzo, História da Educação Pública, São Paulo, Editora Nacional, 1959.

ARTIGOS, TESES E DOCUMENTOS:

KUJAWA, Henrique Aniceto, O Movimento dos Monges Barbudos, tese, Porto Alegre, UFRGS, 2000;SILVEIRA FILHO, Oazinguito Ferreira, 80 anos de educação em Petrópolis, Petrópolis, Tribuna de Petrópolis, 10/10/1982, p.2, caderno especial;SILVEIRA FILHO, Oazinguito Ferreira, “Subsídios para a História do Carnaval Petropolitano: O Carnaval de Ontem”, in Tribuna de Petrópolis, Caderno Especial Comemorativo, fevereiro de 1985;GALLO, Silvio, Autoridade e a Construção a Liberdade: O Paradigma Anarquista em Educação, tese, Campinas, Unicamp, 1993.SCHAETTE, OFM, Fr. Estanislau, Pré História de Petrópolis, opúsculo, 1953;IMPERIAL COLÔNIA, Relatórios da Diretoria da Colônia, Coleção João Duarte da Silveira, Arquivo Público Municipal da Biblioteca Municipal;


sábado, 20 de dezembro de 2025

A COLONIZAÇÃO ALEMÃ EM PETRÓPOLIS

 A COLONIZAÇÃO ALEMÃ EM PETRÓPOLIS, segundo Emilio Willians

Silveira Filho, Oazinguito Ferreira da, in Tribuna de Petrópolis, 30/06/1984, primeira página, Segundo Caderno



Emilio Williams sociólogo natural de colônia na Alemanha nascido em 1905 imigrou para o Brasil migrou para o Brasil em 1931 onde já estabelecido dedicou-se aos estudos dos problemas de adaptação dos alemães as terras brasileiras. 

Lecionou em vários colégios no Estado do Paraná em São Paulo, onde ingressou no magistério universitário como concursado e foi orientado pelo ilustre professor e pesquisador conhecido Fernando de Azevedo assumindo a Cátedra de Antropologia da Universidade de São Paulo-USP.

Lecionou também como convidado nos Estados Unidos na Vanderbilt University, chegando a ministrar inúmeras palestras e conferências sobre assuntos de sua especialização. 

Entre vários trabalhos seus que foram publicados encontramos dois dos mais conhecidos a “Aculturação dos Alemães no Brasil” e a “Assimilação e Populações Marginais no Brasil”, entre incontáveis estudos e teses de inegável valor para as ciências humanas. 

Em “Aculturação dos Alemães no Brasil”, Williams trata do assunto até a época da publicação do mesmo em 1940 pouco estudado, sobre o modelo adaptacionista social dos povos imigrados para o Brasil, destacando-se os alemães. E um trabalho de profundidade onde suas análises são da maior relevância e aplicabilidade as diversas formas de colonização teutas no Brasil, bem como de outras. E nas quais atuais estudiosos devem se interessar, e torná-la bibliografia obrigatória aos trabalhos do campo em destaque. 

Mas este trabalho de Willens é muito pouco conhecido dos estudiosos da Petrópolis-Colônia, e seus conceitos nada relatados ou aplicados ou até mesmo discutidos. Isto talvez pelo grande volume de documentos que possuímos, mas que mesmo assim nos obrigam a leitura de outros.

Talvez a única crítica que possamos formular o seu trabalho seja a metodologia de estudo dos documentos o que lhe facultou uma aplicação de teorias generalizadas quanto a colonização alemã no território brasileiro. Não se detendo nos pequenos casos implicações regionalizadas que caracterizam as localidades especialmente o caso petropolitano.

Porém suas referências em estudo a Petrópolis deixa um pouco a desejar e mais ainda pouco a se atualizar senão vejamos algumas das que se destacaram e que nos são importantes.

A TRANSFORMAÇÃO DE PETRÓPOLIS EM CIDADE FOI PREJUDICIAL AOS COLONOS ALEMAES?

Emilio Willens afirma que a colonização alemã em Petrópolis foi por si só característica das demais do país. E que quando Petrópolis foi elevada à categoria de cidade, este ato foi realizado pura e simplesmente com a intenção de marginalizar e expulsar os alemães para os vales, preservando o centro da comunidade como exclusivo dos nacionais. Assinala ele também que profissionalmente, sendo reservado aos descendentes alemães o ofício de sapateiros, seleiros, ferreiros e outros de condição inferior. 

Williams alega também existia um só vereador de origem germânica em 1859 (João Mayer, sendo para William estes símbolos, fator do preconceito dos eleitores petropolitanos) para a defesa dos interesses da comunidade.

Estas suas considerações foram feitas tomando por base “Uhles Illustrierter Deutsh-Brasilianischer Familien-Kalender, 1911”.

Em primeiro lugar estas suas considerações iniciais sobre os alemães de Petrópolis estão segundo os mais recentes estudos desatualizados 

A elevação de Petrópolis a categoria de cidade obedeceu a uma premente necessidade da atuante comunidade em que ela se tornara importante centro de veraneio da família imperial e do estimulante ritmo comercial que começava a se impor, recaindo mais tarde em um direcionamento industrializante, o que por si só já é um fator relevante e condicionante do ato.  A parcial transferência urbana da capital.

Quanto a ser realizada para a completa marginalização dos alemães em detrimento dos nacionais, isso se torna inexato, pois desde o estabelecimento da colônia, a lei de colonização estipulava que deveria existir um número igual ou maior de nacionais para com a população alemã. 

Outro fato a ser salientado neste cenário é o que em qualquer desenvolvimento urbano brasileiro, o centro da comunidade tende a ser destinado quase como um fenômeno ao exclusivismo comercial ao exclusivismo comercia. Isto não caracterizou uma expulsão e os vales, quarteirões, atuais bairros segundo o projeto original eram designados como áreas para os projetos agropecuários colonialistas o que claramente não se sucedeu.

Outro item seria o de haver somente um vereador germânico nesta época William se esquece totalmente de que a legislação eleitoral do tempo era essencialmente seletiva, realizada com base nas posses dos indivíduos. E de que todos os colonos provinham de regiões humildes da Alemanha o que caracterizava sua pobreza e inferioridade de instrução entre os mesmos e torna-se também indicador o grande volume de profissões artesanais e campesinas entre eles. 

DESACULTURACAO COM A MUDANCA ADMINISTRATIVA?

Willens contextualiza que nesta mesma época, com a mudança administrativa da direção da colônia para o estabelecimento da Câmara Municipal, os alemães e seus descendentes perdem muito mais seu contato cultural com seu primitivo gerenciamento institucional subordinado a Corte.

Fala ainda sobre os mais novos estes trocavam com facilidade sua diferença cultural pela dos nacionais, e que as mulheres possuíam uma conduta moral totalmente desabonadora.               

Porém logo depois Williams assinala com grande veracidade que foi a vida miserável que os mesmos levavam na colônia, que os condenava não somente a uma perda de sua cultura como também dos princípios morais (com base in, Johann J. von Tschudi, op.cit., 1866).

Sabemos o quanto foi impossível para os colonos se situarem na nova terra. Os projetos agrícolas foram condenados ao fracasso por falta de vários elementos, inclusive incentivos financeiros da província, somente restando aos mesmos com a sobrevivência frágil, com base nos vazios do consumismo imediatista da sociedade petropolitana que se impunha a veranista. 

Uma forma de prestação de serviços auxiliares aqueles que tão bem eram desempenhados por eles em suas aldeias da terra origem. 

Muitas das vezes muitas das vezes nem estes elementos satisfaziam a necessidade familiar, eram frequentemente as “moçoilas brancas” que defenderiam a sobrevivência familiar frente a “boa sociedade aristocrática e veranista”, como também frente aos “bons rapazes” da aristocracia. Ocupavam o serviço doméstico concorrendo com os negros de locação, atendendo aos anúncios dos jornais locais (Parahyba, O Mercantil). Outro setor que as empregava eram os hotéis, em grande quantidade que desejavam a mão de obra branca das filhas dos colonos que lhes vendiam carvão para seus fogões (ameaça de desmatamento que leva a medidas radicais de D. Pedro para a Colônia). 

Todo este quadro torna o processo de aculturação não um ato deprimente, mas sim uma adequação necessária pela proximidade com uma urbe maior e mais desenvolvida e se impunha seu próprio “modus vivendis”, massacrando o que se interpusesse em seu caminho de que fosse o modesto protótipo de colônia.

Quanto ao “acaboclamento” assinalado por Williams, este se afirma não como um fim, mais também como um meio de sobrevivência do indivíduo ante a miserável situação que se impunha perder a língua “mãe” e de seus costumes era determinante para caso não se fizesse sucumbir. 

Não que o sentimento nativista falasse mais alto e a colonização porém para o pais em sua unidade tornara-se aberrante e de difícil compreensão, outra sociedade ilhada com costumes e idioma diferentes.

Este sujeitamento era necessário dentro dos princípios de homogeneização da sociedade brasileira cuja raiz já se tornara profundamente mestiça.

Outro elemento que colaborou com este acaboclamento é o fato de educação ser privilégio de poucos na comunidade, e o não incentivo a proliferação de escolas públicas. Quando se assinala o descaso dado a organização de escolas alemães, e porque este não era o princípio defendido pelas administrações, o que se esperava e talvez tenha sido um erro, era o rápido entrosamento interétnico entre as populações, e que só se sucedeu na transição dos séculos, com a industrialização maciça.


PROCESSOS TECNICOS DOS DESCENDENTES ALEMAES 

Williens, também se engana ao afirmar que por informações de um observador pode destacar não haver tido o mínimo de progressividade técnica nos processos de produção entre os descendentes alemães de Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis e que novamente o acaboclamento se tornou evidente. 

Quanto aos casos de Teresópolis e Friburgo nada podemos afirmar, por não o conhecermos. Mas, quanto a Petrópolis, sim, que isto se torna uma inveracidade.

Vários foram os frutos o progresso técnico alemão e que puderam ser verificados, principalmente nos modos de produção industriais têxteis e de muitos outros.

As cervejarias são um típico exemplo disto, alcançaram um nível e renome internacional – nas firmas de tecidos alemães foram importantes conseguindo sobrepujar aos italianos e nacionais, chegando inclusive alguns alemães e seus respectivos descendentes a se tornarem industriais. Isto sem falar no campo da construção civil, aonde foram os mais eficientes obreiros e artesãos encontrados. Seu nível artesanal indicou e serviu de alicerce para inúmeros outros campos de produtividade, sem importância mais relevantes para a comunidade e emergente que Petrópolis se tornava no Estado.

A RELIGIÃO DA COMUNIDADE 

Emilio Williams estuda a religião em Petrópolis tomando por base H.H. Handelmann, História do Brasil, 1931 e “Festschrift der Deutsch-Evangelischen Germeinde in Petropolis, 1863-1913”.

Assinalando a disputa ocorrida entre o pároco católico alemão e o brasileiro, cuja rivalidade terminou com a expulsão do alemão.

Não obstante o protestantismo evangélico, se fornou até ante decisões legais do núncio apostólico em questões de pouca relevância na comunidade. 

Concorde-se com Willens em suas análises que o conflito delicioso era permanente e que para tal o pastor e a comunidade alemã de Petrópolis tiveram que obedecer ao arbítrio do Conselho Evangélico de Berlim. 

Outro fato que deve ser apoiado e que com o processo de desaculturação muitos se converteram ao catolicismo. 

Porém aqui abrimos um parênteses de referência que passa desapercebido a estudiosos como Willens e outros.  E o de não encontrarmos em Petrópolis os fenômenos acontecidos no sul do país, com sérios conflitos: como o messianismo e o que é beatismo, natural de comunidades onde a religiosidade foi nula. Petrópolis ao contrário comportava conflitos internos religiosos. 


PALAVRAS FINAIS DE EMILIO WILLENS

Ele concorda que o governo brasileiro não poderia permitir a criação dentro do seu território de uma província exclusivamente estrangeira com autonomia e governo próprio, que comprometesse os princípios de unidade da população nacional. Porém Willens exagera no que diz em que os brasileiros terão de desistir de suas veleidades nativistas. 

Ele se esquece dos primórdios de formação da civilização europeia, onde o domínio de um povo pelos outros era uma constante.  E que no caso no caso de uma nação nova como a brasileira e que já havia experimentado amargura da dependência colonialista tão cedo poderia se livrar dessa ideia nefasta.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

Contribuição à História Social: Saques, Petrópolis e o 31 de agosto de 1918

 

Contribuição à História Social: Saques, Petrópolis e o 31 de agosto de

1918

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho

(publicado pela Tribuna de Petrópolis, 08/10/1983, primeira página do Segundo Caderno)

 

O título acima, saques, pode muito bem demonstrar um acontecimento generalizado aliado à uma data, porém o mesmo se dá a um caso particular ocorrido em Petrópolis, e que de nenhum modo altera o sentido geral da história do país neste período.

Hoje este fato pode ser visto historicamente como um fenômeno social de descontentamento das massas populares em uma determinada sociedade e em determinada época, e que analisado os seus precedentes chega-se a obtenção de mais um elemento essencial à critica histórica do citado período.

É bom frisar que quanto maior a distância temporal de um dado acontecimento e/ou fato social, este pode ser melhor interpretado e analisado historicamente. Haja visto, como exemplo, que os fatos ocorrido durante o presente ano de 1982, saques, violência urbana, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, podem ser estudados no momento pelo ângulo sociológico que estes fornecem, quanto ao seu caráter histórico só quando for obtida uma relativa distancia temporal dos mesmos, pois caso contrário poderemos incorrer em erros de interpretação e criticismo de sua verdade histórica.

O trabalho ora proposto não pode por si também oferecer uma crítica comportamental histórica, já que o publico a que este trabalho se destina é em sua grande maioria formado por leitos ao assunto. Por isto infundimos à presente característica de uma crônica histórica, procurando dar conhecimento a todos aqueles que juntamente com o autor deste, não alcançaram temporalmente o abordado período, e cientificando de que fatos como os que hoje se sucedem são uma constante no caminhar da humanidade. Também demonstrando que uma sociedade como a petropolitana se apresenta imóvel, e é hoje considerada inerte pelo  atual contexto social vivido, foi outrora turbulenta e expressiva, na proporção em que eram vivenciados os fatos, e na medida em que estes alteravam sua estrutura de vida.

E aqui, como curiosidade da vida socio econômica de Petrópolis, reportemo-nos ao ano de 1918.

A Rebelião Petropolitana

O que foi o 31 de agosto de 1918 para Petrópolis?

Foi pela desenvoltura dos acontecimentos, o reflexo sintomático de uma crise que vinha se estabelecendo no país de há muitos anos. Para ser mais preciso desde a crise internacional de 1913 cujos efeitos se estendem pelos primeiros anos e Guerra, e à qual esteve o Brasil intimamente ligado.

Entre nós o desemprego atingia duramente os trabalhadores, chegando até mesmo a ser criada pelas classes dominantes uma comissão de socorro às pessoas sem quaisquer condições mínimas de sobrevivência, um serio indicador da gravidade – déficit em nossa balança comercial com importações elevadíssimas e queda nos preços dos produtos exportados – emissões inflacionarias para sustentação do café – alta dos produtos alimentícios no mercado internacional. Todo um conjunto de ações que ramificada mente conduziram a uma elevação do custo de vida sem precedentes. Sem contarmos também as várias deflagrações de greves por inúmeros movimentos operários no país, resultado de um processo de conscientização e organização da classe, e demonstrativo da insustentabilidade da situação, o que culminou com espontânea explosão social de 1917.

O ano de 1918 inicia-se sob a mesma influência, não distando o quadro social em nada do anterior.

Petrópolis, por si, apresenta as mesmas consequências, sendo que aqui não poderíamos nominar uma decisiva mobilização operaria durante o período, já que a grande participação de mulheres e crianças no meio operário minava-lhe a resistência, e o paternalismo era por demais nítido. Assim mesmo as greves eram inúmeras e constantes eram os piquetes.

A problemática trabalhista e a opressão no interior de estabelecimentos industriais, como a Cometa e outras indústrias eram frequentemente noticias da imprensa local, vido se juntar a estes o da carestia dos gêneros de primeira necessidade, do açambarcadoríssimo dos mesmos, e o da inescrupulosidade dos comerciantes do município, sendo ambos amplamente debatidos e denunciados nas colunas de jornais.

Tudo conduziu ao clímax. Às vésperas do fatídico “31 de agosto”. O COMERCIO, assumia na integra em sua primeira página o tom de denúncia: “...Já de há muitos dias, vem a greve durando, com todo o seu cortejo de agruras para os pobres tecelões que lá, na riquíssima COMETA, apenas auferem o bastante para não morrerem – e as famílias – à fome”, “... O Governo, o nosso inefável Governo, depois de lançar as massas às legiões de INTENSIFIQUE-SE, cria o nababesco Comissariado da Alimentação, pensando tudo resolver...”.

Este comissariado tinha como objetivo principal o controle e distribuição dos gêneros de primeira necessidade, além da criação de tabelas de preços máximos para a venda e policiamento dos comerciantes e produtores. Em resumo o órgão embrionariamente ministerial e que demonstrou durante seu período de vida, sua escassez de autoridade e fracasso para o fim a que fora criado. Para o citado comissariado fora nomeado o então Presidente interino da Câmara Municipal de Petrópolis, o Dr. Leopoldo Bulhões, que possuía amplo e íntimo relacionamento com as diversas associações de comerciantes.

Como primeira medida durante o mês de junho, o Comissariado manda promulgar em lei uma tabela de preços máximos para a venda de gêneros de primeira necessidade no “combate à carestia”. Suas consequências são por demais catastróficas, pois ela se destina a toda a região onde esta localizada a Capital Federal, excluindo as demais zonas do país em estado de tensão com a questão dos preços. E mesmo nesta, a tabela não é respeitada pelos comerciantes, gerando protestos e tumultos urbanos e ocorrendo a intervenção da policia carioca.

Os meses de julho e agosto transcorrem insustentáveis por todas as regiões. E as frases geradas no interior dos vários estabelecimentos comerciais, eram grafadas pelos jornais:

“ – Qual. Não a cumprimos. Ninguém manda em nossa casa. Eles são mais gatunos que nós.” (O COMERCIO)

O sistemático desprezo dos negociantes, juntamente com o descrédito pelos atos governamentais, acarreta nova onda de protestos e ebulições em vários pontos do país. Sendo em Petrópolis, que o conflito se agrava com maior intensidade.

Pela manhã do dia 31 de agosto, corria à boca pequena que o Armazém de PESTANA & CO. (Grande Refinação de Açúcar Pestana e de Mantimentos, na Avenida XV de Novembro no. 657) embarcaria à tarde para o Rio uma grande partida de açúcar. Esta informação que percorre toda a cidade fomentou verdadeira aglomeração à Estação e proximidades do armazém, o que evita que três vagões repletos de sacos sejam embarcados, pois temerosos os sócios da empresa dão a contraordem.

Neste espaço de tempo, o Prefeito interino e Presidente da Câmara, Coronel Arthur Barbosa ao tomar conhecimento dos fatos, se reúne com a autoridade policial local colocando as forças policiais do município em estado de alerta, ao mesmo tempo que mantem contatos telefônicos com o palácio do Governo do Estado pedindo o auxílio de tropas e de um delegado auxiliar. Também se comunica com o Governo Federal pedindo medidas intervencionistas por intermédio do Comissariado da Alimentação.

Ao cair da noite, aproximadamente às 19 horas, o povo volta a se reunir em vários grupos na Praça D. Pedro, e comenta-se a viva voz os acontecimentos anteriores que são encarados por eles como uma verdadeira vitória. O grupamento popular aumenta, chega a se constituir uma verdadeira massa humana. Os ânimos se exaltam, em uma tentativa de intervir tentando amainar os ânimos, o subdelegado de polícia, Dr. Álvaro de Oliveira, é esfaqueado, ficando gravemente ferido, assim como sua ordenança também, - só que é um tiro que o detém. Este foi o sinal e a população imediatamente inicia seu ataque contra o ARMAZÉM DE SOUZA GOMES & CO. situado na mesma praça (razão comercial da Refinação de Açúcar e Armazém de Mantimentos em Grosso, no. 37/55 da Praça Dom Pedro, onde atualmente localiza-se o Edifício Arcádia) situado na mesma praça. Alguns diziam haver começado o mesmo com o disparo, outras fontes citavam ter sido o ataque espontâneo e o incidente haver ocorrido no transcorrer do assalto. Porém a bem da verdade, é que as portas do vasto armazém são arrombadas, penetrando o povo em seu interior e dando inicio ao saque: “... Eram homens, mulheres e crianças, carregando sacos, latas e caixões que passavam em todas as direções. E era de ver-se gente com a alegria estampada no semblante, suarenta, a deitar os bofes pela boca, conduzindo para casa açúcar, banha, feijão, arroz, ..., uma infinidade de coisas.” (TRIBUNA DE PETRÓPOLIS)

“... a cidade dava a idéia de um imenso formigueiro, pois o povo se munia de gêneros, levava-o a casa e tornava ao local da ação em busca de nova presa...” (DIÁRIO DA MANHÃ)

Como de mais nada restasse nos armazéns de SOUZA GOMES, a faina popular se concentra nos armazéns da CASA PESTANA, arrombando como no primeiro, as portas e se comprimindo no interior do mesmo. A massa humana era estimada em cerca de duas mil pessoas aproximadamente, 10% da população do município.

O comercio ainda ativo, de um modo geral temeroso ante a violência e furor populacional, cerra suas portas e as guarnecem, inclusive aos botequins.                 

A única coisa verificada pelas ruas era o vaivém populacional com o material saqueado entre seus braços. PESTANA & CO., além de saqueado teve seus objetos mobiliários quebrados ante a sanha popular ... Vidros, balcões, tudo isto unido a palavras de ordem contra os açambarcadores.

Uma noite de sábado, onde o tempo era instável e a temperatura fria, mas nada disso abatia a revolta do povo: “... muitos populares chegavam mesmo a transportar esses gêneros em tílburis, carros, carroças e carrinhos de mão...” (DIÁRIO DA MANHÃ)

A tropa policial receosa esperava no interior do quartel a chegada de reforços oriundos da capital do Estado. Estes tardavam, não podendo de imediato serem enviados devido aos protestos de rua em Niterói e ao policiamento ostensivo na Capital.

Os saques se estenderam, chegou a vez do armazém de NICOLAU GOMES & CO., com avidez e exaltação generalizada, jogavam-se os gêneros à rua por intermédio de uma porta arrombada, os quais eram disputadíssimos. Estavam os comerciantes apavorados, os mais inescrupulosos e donos dos maiores armazéns não ousavam nem mesmo aparecer com medo da extensividade dos ataques.

Nem casas de frutas estabelecidas à Avenida XV escaparam ao ataque. Por volta de meia-noite o ARMAZÉM FINKENNAUER, à Rua XIV de julho, teve todo o seu estoque carregado e seu interior destruído. A multidão encaminhou-se a CASA VIEIRA, onde diante da mesma o Dr. Gualberto de Oliveira, falando ao povo, conseguiu dissuadi-lo de invadir aquele estabelecimento. Tomando novo rumo a população se dirigiu às INDÚSTRIAS REUNIDAS de propriedade de Manoel Gomes Amorim. Nesta, o filho de Manoel Gomes, armado do pavilhão nacional súplica ao patriotismo do povo, no que é atendido. Fato este que se repete em mais duas casas comerciais: o BAZAR AMÉRICA e o armazém de Bernardo Meira à Rua Souza Franco. Assim agiam os pequenos comerciantes, tentando evitar o ataque à suas casas, chegando até mesmo a expor suas próprias famílias.

Corriam boatos da extensividade dos saques pelos bairros, de incêndios provocados e inclusive de comunicações cortadas e de trilhos de via férrea retirados para impedir a chegada de tropas. De verdadeiro, somente os assaltos às casas comerciais do bairro do Valparaíso, sendo que, no ARMAZÉM DE CARMINIO VERICHIO, estabeleceu-se forte tiroteio com várias vítimas em estado grave: um homem, duas mulheres e duas crianças.                

Outra pessoa foi ferida a facadas, quando do assalto ao ARMAZÉM DE JOSÉ GOMES na Avenida XV, funcionário de fiscalização do município, que procurava deter os populares.

A uma hora da madrugada, uma relativa volta à normalidade, somente sendo vistos alguns poucos a carregar as sobras espalhadas durante a correria. Às duas da madrugada chega à cidade pela Leopoldina a força requisitada, tendo a essa hora o povo já se recolhido, e restando pouco a fazer pelos recém chegados. Força esta composta de 50 soldados entre infantaria e cavalaria.

Durante os assaltos os tiros de guerra 12 e 302, recrutaram seus atiradores à prestarem guarda nos quarteis para garantir o armamento d munição, sendo posteriormente colocados em estado de alerta e organizados para prestação de guarda ao município em auxilio às forças policiais. Ainda pela madrugada via-se o corre-corre de médicos atendendo aos inúmeros feridos.

De manhã, podiam-se ver os destroços causados pela intensidade da fúria popular. Dá-se início a um sigiloso inquérito policial, enquanto na cidade se realizava um posicionamento ostensivo, além do que, durante este dia e os seguintes, várias prisões de populares são efetuadas, e numerosas mercadorias são apreendidas, em casas residências do centro da cidade e da periferia. Uma incessante chegada de caminhões com mercadorias à Delegacia de Polícia, e lá depositadas sob forte guarda armada na antiga COCHEIRA GARCIA.

Durante toda a semana grupos policiais amparados pela lei de guerra (Decreto no. 3.533, 03/09/1913), e insuflados pelos comerciantes lesados, invadiam as residências pobres, por vezes operárias, na execução da apreensão das mercadorias e prisões, se excedendo às vezes.

As autoridades eram acusadas por conivência com os saques. Vez por outra as mesmas acusavam a existência de agitadores subversivos descontentes com a política do partido situacionista. Os jornais se degladiavam em insultos, muitos procurando culpar o movimento operário local pelo planejamento da operação, o que não é provado. Choviam os telegramas das Associações Comerciais par o Presidente da República e do Estado, chegando os comerciantes a moverem ação contra o Estado, buscando se ressarcirem de suas perdas.

Os jornais cariocas traziam longas manchetes e editais destinados ao episódio e alguns comentando de forma exagerada e maliciosa, enquanto outros, salientando mais detalhes que, por interesse da comunidade, não eram nominados (JORNAL DO COMERCIO e CORREIO DA MANHÃ).

Vez por outra ... novos boatos. Na noite do dia primeiro, noticias de novas tentativas de saque a um armazém no Quarteirão Suisso (Caxambu). A força policial de cavalarianos, lá chegando, encontra-o totalmente às escuras e nada acontecendo é plenamente vaiada pelos moradores.

Não somente Petrópolis fora acometida por tal fenômeno. Durante o período constataram-se ações idênticas em Muriaé e Juiz de Fora, e algumas reações malsucedidas na Capital Federal e na do Estado.

A constatação geral foi a de que: “... O povo não tocou em dinheiro, não arrombou cofres que, com certeza, estavam recheados. Se resumiu simplesmente a saciar sua própria fome com os gêneros encontrados...” (TRIBUNA DE PETRÓPOLIS).

Fato é que, passados quinze dias, a imprensa não dava mais palavras ao acontecido, sendo agora a cidade acuada pelo temor à Gripe Espanhola.

Conclusão:

Tanto no ontem como no hoje é o papel das massas em uma dada rebelião fenômeno representativo de épocas decadentes, onde o grito e a ação são as únicas formas de expressão ante o potente inimigo. Suas características mais destacáveis são, na maioria das vezes, correlacionadas ao problema da fome e do desemprego, não podendo serem ai coligadas ao habitual pregão de “agi”, haja visto a adesão genérica do individuo frente a esses momentos.

Inúmeros são os exemplos históricos, teses e teorias que serviriam e servem a todos aqueles que conquistam o poder, e que podem, em um trabalho sério, evitar o fenômeno.

Bibliografia:

Fontes Primarias:

Impressos: Jornais e revistas Pertencentes a Hemeroteca Pública da Biblioteca Municipal de Petrópolis;

Fontes Secundárias:

Albuquerque, Manoel Mauricio de. Pequena História do Brasil, Editora Paz e Terra, RJ, 1982;

Fróes, Gabriel Kopke, in O Caráter Petropolitano, Biblioteca Municipal, Petrópolis, 1960;

Martins, Ismênia de Lima, Subsídios para a História da Industrialização em Petrópolis – 1850/1930, Centro de Pesquisa de História da UCP, 1983;

Fausto, Boris, Conflito Social na República Oligárquica, Cebrap, São Paulo, 1974;

Álbum Guia da cidade de Petrópolis, 1918.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 22 de janeiro de 2011

CARNAVAL EM PETRÓPOLIS NO SÉCULO XIX

• CONTRIBUÍÇÃO À HISTÓRIA SOCIAL PETROPOLITANA:
SUBSIDIOS PARA UMA HISTÓRIA DO CARNAVAL EM PETRÓPOLIS NO SÉCULO XIX (1)

“E o povo? Esse, também, se divertia.
Logo às primeiras horas da manhã, os escravos iniciavam, barulhentamente, o entrudo, pelas senzalas e pelos logradouros da cidade.
O Rio de Janeiro acordava em alvoroço, ouvindo os ambulantes que já apregoavam as mercadorias da ocasião:
- Porvio! Limão de chêro, de toda cô. Bom chêro. Bom chêro.
Um pacote de polvilho custava, no começo da passada centúria, cinco réis e uma dúzia de limões d’água, cheirando a canela, dois tostões. O limão vinha no tabuleiro da preta e o pacote de pó de goma no cesto ou no samburá.
- Porvio! Limão de chêro!
As crianças saltavam da cama, gritando: Entrudo! Entrudo! Entrudo!
E iam provocar a vizinhança, bombardeando as urupemas e grades de pau com bolas de cera cheias de água, que lhes davam as famílias, atrás das rótulas, a cocar a cabeça do primeiro que surgisse para responder ao desafio. Dentro em pouco generalizava-se o combate. A labareda de alegria pegava fogo em todo o Rio de Janeiro. E os limões de cheiro a cruzar!
Entrudo! Entrudo! Entrudo!”

(in, EDMUNDO, Luiz, Recordações do Rio antigo)

O texto acima que bem caracteriza o “carnaval” carioca, popular, genuinamente brasileiro em pleno século XIX, de nada teria a ver com o carnaval que se desenvolveu em Petrópolis a partir dos registros impressos da década de 50 do mesmo século. Embora o carnaval petropolitano nada de novo possuiu-se para se acrescentar à história desta festividade folclórica de herança portuguesa tão presente em nossa sociedade. Todos os elementos que no município encontramos foram transferidos da Corte e das demais regiões e adaptados ao cenário local, principalmente a partir da presença dos “veranistas”.

A “Petrópolis colônia”, possuía em sua constituição demográfica uma grande massa de colonos alemães, vindos de províncias “esquecidas” da Alemanha, campesinos em sua maioria, ignorantes, e cujo germe de festividade não passava de seu próprio folclore e costumes, comemorações camponesas as épocas de plantio e colheita, tão comuns herdadas do cotidiano feudal europeu.

Por outro lado o contexto dominante entre os colonos era de protestantes, com um perfil tão alto que desestimularia toda e qualquer outra forma de diversão que a própria moralidade religiosa condenasse por princípios. E os alemães e seus descendentes por sua formação aceitavam sem contestação tendo por base seu limitado universo cultural.

Outro fato que poderia ser constatado era o de que os prazos coloniais ficavam distantes do centro, isto é, das terras de reserva imperial onde se situava o sitio do município. Só com o passar das décadas e a falência da colônia agrícola é que por sobrevivência os mesmos tornam com maior freqüência ao centro da cidade para a prestação de serviços diversos como os domésticos e outros, aos hotéis, legações, casarões e a Corte.

Emilio Willems (2) , em seu trabalho sobre cultura alemã no Brasil, acrescenta não haver encontrado até a data do término de sua obra, em suas pesquisas, quaisquer indícios sobre se ocorreram influências alemães no carnaval carioca, e, caso tenham ocorrido, foram imperceptíveis. O único dado ressaltado por Willems, foi o de que já na primeira metade do século passado, haver constituído entre os alemães na cidade do Rio de Janeiro uma sociedade que, procurou transferir a “tradição carnavalesca” alemã, se assim puder ser considerada, mas de seus resultados nada foi divulgado, ou observado sociologicamente ou historicamente pudesse ser considerado.

Petrópolis possuía equilibradamente, por deliberações políticas quando da organização política da Colônia, uma divisão nos componentes da população nacionais e coloniais, o que determina que, a principio, ocorra um afastamento cultural entre ambas, pelo anacronismo de seus costumes e idiomas. Notamos pelo decorrer de nossas pesquisas que também, o pequeno número de escravos que perfazia a população petropolitana de então, não era um número suficiente para poder deixar patente seus costumes, restando-nos somente os nacionais, aos quais se deve a entrada, ora popularmente com o “entrudo”, ora aristocraticamente com os carnavais de máscara e salão, o privilégio de transplantarem tal modelo de festividade tão presentes na Corte e nas demais capitais de províncias.

Mais tarde, talvez, os demais tenham produzido efeitos introdutórios nos hábitos de festividade, com o advento das sociedades e grêmios fundados em nossa comunidade assim como outras nacionalidades que adicionaram ao carnaval brasileiro alguns de seus elementos.

Em nossa volta às origens do carnaval petropolitano, fundamentamos nossos registros em 1858, com os informes da imprensa local, onde em edições de fevereiro, como ocorreu o mesmo em nosso município (3) .

Ocorreram bailes mascarados (4) concorridos nos três dias de festa no Hotel Bragança, e na terça-feira, dia “em que não choveu”, muitos máscaras passearam à cavalo e de carro pelas principais ruas da cidade, acompanhados ao largo pelo povo. Nos bailes muito se dançou “e apareceram alguns máscaras curiosos e outros provocadores”.

A primeira critica política também aqui foi encenada. No domingo, “dois máscaras andaram medindo a distância nas ruas para a colocação dos lampiões”, em uma nítida alusão à falta de iluminação na cidade. A municipalidade já nem mesmo completara um ano de vida, e os problemas que à esta época tornavam-se comuns, não deixavam de estar presentes em nossa cidade. E uma critica social presente na ousadia feminina de uma veranista, na terça-feira, não se podia deixar de notar “uma senhora com uma saia balão desconforme que provocara risos e atenções de todos”.

O mesmo jornal também nos oferece a informação de que os festejos desta época foram uma iniciativa do sr. Augusto da Rocha, comerciante vindo da Corte e estabelecido no município. Que talvez tenha patrocinado alguns máscaras de ruas ou baile nos salões do Hotel.

Em uma crônica da época, assinada pelo pseudônimo de Hudibras, nos fornece uma análise do requinte aristocrático, elitista e preconceituoso do carnaval local. Em suas passagens podemos notar que no Hotel Bragança e nos passeios das ruas, era a elite que predominava. E quando ele assinala que seu criado estava com uma “alemasita gelada” ao braço, observa-se ainda o preconceito contra os colonos por parte da sociedade nacional, principalmente a aristocrática veranista. Narra o cronista ainda sobre o consumo da cachaça e do champanhe, além de frisar que lá se vão os antigos tempos da seringa de limões de cera, em uma alusão de que o “entrudo” já houvera ocorrido em Petrópolis, e entrara em uma fase de recesso ou mesmo opressão.

Já nos registros do mesmo jornal em 1859, encontramos “não foi assim um carnaval tão emocionante e competitivo”, relata, “pois é o ano das eleições, e esta, sim, é o maior carnaval”, os jornais do período em Petrópolis sofriam uma “certa” condição de repressão, não somente pela presença da Corte em seu longo veraneio, como por sobrevivência ao público que se destinava na Colônia. Por tal, criticas como a analogia presente acima, eram raras.

De 1860 a 1874, ficamos sem qualquer relato histórico pois não possuímos qualquer documento impresso comprobatório nos arquivos. É o tão “decretado” fim de 14 anos de nossa história, que jamais poderão ser reabilitados pelas páginas da imprensa. Ressalva se faça a uma fotografia de um grupo carnavalesco, pertencente ao Arquivo do Museu Imperial, e datada de 1868, onde um carro alegórico denominado de “encouraçado” e que havia sido construído por Antonio Brandão, famoso cocheiro de diligências no município, era a sensação da época visto pelo inúmero grupo de populares presentes nas proximidades do mesmo. Talvez neste período possam ser estabelecidas até informações sobre o aparecimento do “Zé Pereira” em Petrópolis, já que este surge em 1846, em um acontecimento que segundo muitos estudiosos revoluciona o carnaval carioca. Zé Pereira, o tocador de bumbo, que para alguns era o nome ou apelido dado ao cidadão português Jose Nogueira de Azevedo (5) .

Nossas pesquisas prosseguem pelo jornal O MERCANTIL, em 1875, que inicia seus relatos afirmando haver sido o carnaval deste ano “chuvoso e fracamente concorrido, não possuindo a mesma animação dos anos anteriores”. Afirma haver sido diminuto o número de máscaras, e, assim mesmo, desprovidas de qualquer espírito. Quanto aos bailes de carnaval, ou de salão como se afirmava, como os do Teatro Bragança (6) , foram muito fracos, sem maiores descrições quanto ao mesmo. Assinalando também que somente cinco carros com máscaras haviam aparecido pelas ruas. É aqui onde o jornal oferece um dado importantíssimo, uma referência à crise econômica da nação que acometia a população na época, o que para o editor está comprovado pelo pequeno número de veículos a desfilar, porém adicionaremos um dado também importantíssimo a constância das chuvas no verão petropolitano, que tornavam vez por outra intransitáveis às ruas do centro, transformando-as em “rios de barro”.

O mesmo jornal inicia suas edições de 1876, lamentando não haver tido grande influência as festividades dos anos anteriores, e que o fracasso se repete. Uma ressalva se faz ao domingo e a terça-feira onde os artistas da Cia. Casali, uma companhia circense (7) , haverem percorrido as ruas “ricamente fantasiados, ao som de música italiano”, sendo que na terça-feira voltam a desfilar em carros e promovem à noite um “baile mascarado” no circo.

“Muito povo nas ruas e poucas máscaras, os divertimentos vão caindo em desuso”, é o comentário presente no mesmo jornal, porém releve-se que máscaras e fantasia pelos seus preços não estavam à altura do poder aquisitivo da população, sendo objeto ao alcance dos veranistas. Outra observação a ser produzida, é o de que quando D. Pedro e sua família viajava ou não subia a serra, o movimento da cidade tornava-se muito fraco.

Já em 1879, segundo o jornal(8) , o carnaval volta à sua habitual alegria. O “entrudo” se faz presente relembrando os tempos antigos, e muitos mascarados desfilam. Nos salões de do Hotel de Bragança e Rougemont, os bailes são concorridos e nas ruas aparece “um navio” – carro alegórico de espírito critico, em alusão aos banhos de água do “entrudo” – que não percorre todas as ruas por causa da chuva, isto ocorreu na terça-feira à tarde. Ainda a mesma edição. Aproveita para acrescentar que os festejos transcorrem na maior “moralidade”, só ocorrendo “um pequeno incidente”, alguns máscaras do alto de um carro jogaram pedras em alguns senhores, o que provocou um “bate-boca” sem maiores conseqüências.

Podemos também observar nesta edição, um anúncio comercial, o primeiro caracteristicamente carnavalesco, o de uma costureira da Corte, que geralmente estabeleciam-se no centro do Rio de Janeiro, Mme. L. Niobey, que se oferece para confeccionar fantasias, e fornece como endereço curiosamente o número de um tradicional hotel, onde talvez estivesse hospedada. Este fato demonstra a realidade do carnaval da época ainda em pleno veraneio. Um carnaval para poucos dentro do que a imprensa caracterizava à época os folguedos, excessivamente caros, presente aos bailes dos Hotéis e aos desfiles dos carros de ruas. Preconceituosamente o “entrudo” era observado como o carnaval do “populacho” e por tal criticado por longo tempo pelas suas extravagâncias e excrescências, até que poucos da elite também venham a aderir.

A data de 1880, torna-se marcante. Petrópolis encontra-se lotada com a epidemia de febre amarela que acomete o Rio de Janeiro, e proporcionando como alternativa a fuga, o que acaba tornando o carnaval petropolitano na visão dos jornais locais, competitivo, principalmente nos aristocráticos salões como o do Rougemont.

Um cronista da época que se autodenominava “Dominó cinzento”, em uma alusão a mesma fantasia na quarta-feira-de-cinzas, e possivelmente uma pessoa com grande acesso a Corte, para gozar de intimidades, tecia longas “fofocas” a respeito das ditas personalidades que por aqui se encontravam a “brincar”, “O Braz Mimoso com dna. Del Lago, o P. Com a G. para desgosto da I, que vingava-se requebrando nos braços do pateta C...”, cita também que grande número de políticos do Rio, aqui se achavam presentes nos salões.

Porém duas referências em sua crônica nos chamam a atenção. A primeira é ainda o forte sentimento preconceituoso ao descendente alemão, e o segundo à cidade, “... que me cobrirão de apupos ao verem que eu deixava a Corte para vir brincar na roça...”. Como bem observado “uma roça” que se prestava a refúgio dos que fugiam da “peste-amarela”. Outra informação importante que se segue relacionada pelo cronista são os denominados atos de “moralidade” de então, era a de um “gracioso da Corte” que, irritado com os perfumes e bisnagas, apedrejava os mascarados, tanto senhoras, cavalheiros e crianças que passavam de carro.

Porém marcante mesmo foi a passagem de “um carro-bomba..., a maior pilhéria do ano”, e o das decorações dos salões, que neste período eram pomposas e requintadas para os bailes carnavalescos. Segundo observamos a necessidade do mesmo carro existia porquanto ocorriam reclamações quanto a constante poeira nas ruas centrais, e por outro lado os incêndios que ocorriam nas velhas casas construídas de madeiras que se faziam presentes desde a época colonial e vez por outra uma pegava fogo, não havendo serviço de “bombeiros” na cidade. Quando de grandes incêndios como os que ocorreram na primeira década do século XX, a ajuda do serviço de bombeiros das fábricas era de grande préstimo ao serviço público municipal.

Como podemos observar até aqui, o carnaval petropolitano se fazia mais presente pela presença da elite da Corte na cidade. Com o desfile dos mascarados em sua maioria oriundo de famílias que se destacavam, econômica ou politicamente na Corte, que desfilavam suas brincadeiras ante uma população nativa completamente extasiada, já que o “entrudo” sofria forte repressão, e era um costume popular mais presente na sociedade carioca. Petrópolis por sua formação caracteristicamente alemã à época, observava a presença dos foliões veranistas, que se enclausuravam nos bailes promovidos nos ricos palacetes e hotéis, além dos desfiles de carros que evoluem para a “batalha de flores” e finalmente para o “corso”, ricamente ornamentados com grupos familiares aristocráticos lançando seus limões de cheiro, e flores sobre a população que maravilhada os apreciava.

Como vemos, não notamos até então qualquer indicação de que o carnaval toma em qualquer época, em Petrópolis a conotação de uma festa popular, apesar dos anúncios dos bailes nos salões serem observados nos programas como “populares”.

Como pode ser observado nos primórdios da cidade o “entrudo” se fez presente, mas a elitização da festa e a forma opressiva como o “entrudo” era condenado (9) , quase fez com que desaparecessem em nome de uma “festa de moralidade” como seria a dos “máscaras”, salão e batalhas de carros.

ENTRUDO: UM RETORNO QUE ASSINALA O FIM

O ano de 1881, em Petrópolis pode ser considerado o marco do retorno às tradições, como o reaparecimento do “entrudo” e a presença do povo nas comemorações carnavalescas. Porém sem que as demais características elitistas até então presentes fenecessem. E o revigoramento, até passageiro neste período do “entrudo”, fornece uma nova possibilidade de análise sobre a participação popular nas festividades locais.

Transcreveremos textos de noticias e crônicas do jornal O MERCANTIL, para melhor ilustrar o exposto acompanhado por alguns comentários e análises.

Como o jornal se apresentava publicado duas vezes por semanas, coincidentemente suas edições geralmente surgiam após os folguedos. “...que o carnaval em Petrópolis este ano esteve desanimado e quase passou desapercebido...”, o comentário nos remete a uma reflexão ante as demais descrições. Desapercebido por parte de quem? Da elite veranista!

“No primeiro dia à tarde, percorreram as principais ruas da cidade os grupos musicais das sociedades, Filarmônica e da Carlos Gomes e poucos máscaras avulsos, em sua maior parte crianças...”

“Quanto aos bailes noturnos nos salões Floresta e Bragança foram muito concorridos...”

“A ordem pública manteve-se na altura da índole pacifica de nossa população, pois não houve de registrar nenhum só ato de desordem ou desacato aos foliões...”

“No mais, noticia-se que o Club dos Terríveis saíram de sua caverna para os bailes, protestando contra o entrudo...”

“Em compensação tivemos um entrudo furioso, porém que não divertiu o povo...”

A imprensa como já dito anteriormente representava a minoria da sociedade local, e tornava-se porta-voz da mesma em sua luta contra o costume do “entrudo”. Quando o redator assinala que os bailes noturnos foram muito concorridos, foi pelo fato de não estarem presentes elementos da população, e os bailes distarem dos folguedos de rua, um ambiente que apesar de sempre anunciar que era popular, restringia a presença da população. Era onde a aristocracia veranista se sentia à salvo do “entrudo”, e porque o mesmo à noite não acontecia, já que a ordem pública das ruas se fazia mais opressiva.

Apresenta duas novidades, um grupo de foliões caracterizados dentro dos salões protestando contra o “entrudo” e crianças divertindo-se com máscaras e grupos musicais nas ruas.

De um curioso “folhetim” publicado no O MERCANTIL, podemos destacar algumas informações relevantes assim como uma parodia:

“Além das noventa e oito fábricas que trabalharam dia e noite na manufatura de limões-de-cheiro, foram importados da Corte para esta cidade 225 mil dúzias de balões de borracha, contendo cada um litro e meio de água, os quais contribuíram em grande parte para aumentar o volume das águas do canal, como se não fosse suficiente a chuva que há quinze dias, nos tem molhado a paciência...”

Apesar do exagero, do cronista, podemos observar que se comercializara um grande número de bisnagas, o que mais uma vez comprova que o “entrudo” se revitalizara por intermédio dos populares. E continua a pilheria além de denunciar o fracasso no comércio das tradicionais máscaras. Por outro lado o texto do folhetim, ainda indica os comerciantes locais, descendentes de alemães ou industriais que se aproveitaram para fabricar as bisnagas.

“Dizem mais, que os srs. Kallembach, Boller, Peifer e Guilherme fizeram um convênio e transformaram em seringas todas as folhas que tinham em seus estabelecimentos, porém não achando os entusiastas do entrudo que esta medida aquática era o suficiente para produzir um dilúvio artificial, pediram por empréstimo a bomba municipal contra incêndios e revertido em arma de combate”

“As máscaras apodrecem nas prateleiras das lojas, os costumes de fantasia aí estão dependurados às portas dos armarinhos, coberto de pó e traça... mr. Chiezzi, laborioso artista levou semana e semanas... trabalhando para surtir a sua loja com todos os artigos preciosos para o carnaval.”

“Pobre artista! Não se lembrou do entrudo...”

Devemos ainda considerar o que já foi mencionado da carestia das fantasias ou máscaras, em comparação com os “limões-de-cheiro”

O “entrudo” era não somente uma festa “barata”, como ao alcance do “populacho”. Não respeitava sexos, idades ou posições, e além disto não havia legislação vigente que o proibisse, não possuindo a cidade nem um código de posturas que previsse os efeitos. Tanto semelhante era uma verdade para a época que até a bomba municipal chegou em verdade a ser utilizada com o consentimento e alegria do fiscal, assim podemos observar que muitos membros da elite acabaram por juntar-se aos populares no festejo, pois o fiscal não se atreveria a consentir a utilização da mesma se não fosse do consenso de seus superiores.

O jornal ainda afirmava com um certo exagero, que eram milhares de esguichos de seringas, bisnagas, baldes, tinas, panelas, bacias ou mesmo qualquer outro recipiente que acomodasse o precioso líquido. Existindo até bombas fabricadas caseiramente com taquarussu (10), onde se forjava um orifício de um lado, e na extremidade uma vara com uma bucha de papel ou pano, servindo para aspirar e jorrar água, como descrito em noticiário.

Para o mesmo jornal a população mesmo ao som dos “Zé Pereiras”, das zabumbas, das buzinas ou músicas, preferia o entrudo.

“Na rua Dona Januária, travou-se um ferino combate entre dois grupos...”, e continua afirmando que o vitorioso junto ao derrotado passavam por todas as ruas infundindo o medo, e que as vezes os mesmos eram interrompidos por gritos alarmantes e jocosos “Aí, vem a bomba municipal, era para os presentes o mesmo que dizer aí vem o diabo”.

Janelas e portas fechavam-se, só as moças saiam para enfrentar, sendo assistidas por uma multidão ao largo e longe dos jatos. Nas ruas também transportava-se em carros ou carroças, tinas e outros recipientes repletos de água.

O “entrudo” também se realizava nos interiores dos lares, verdadeiras “ciladas e traições” eram preparadas com requintes de detalhes, “um verdadeiro troca-roupas para determinados infelizes...”.

Os participantes do “entrudo” não satisfeitos com o material utilizado, adicionavam também outros elementos ao material, tais como: talco, farinha de trigo, e “...até urina e fezes...”

Porém o pior do “entrudo” era reservado pelos membros da elite veranista que aderia às pessoas negras. Muitos indivíduos de cor eram vitimas de efeitos imediatos, tornando-se figuras grotescas e de total deboche em mãos dos mesmos “pseudo- foliões”.

O “entrudo” nestes anos sinaliza com o seu desuso, pois nos anos seguintes seu registro é mínimo, ocasional, e reservado às regiões mais afastadas do centro e ao fim do século XIX se extingue. Os costumes carnavalescos se transformam, assim como a moralidade religiosa na cidade que com a predominância católica avança cada vez mais procurando homogeneizar a população.

O CORSO


Muitos estudiosos situam que a moda do Corso havia sido lançada em fins da primeira década do século XX no Rio de Janeiro, e que o mesmo sobreviveu até 1930, quando do aparecimento das primeiras sociedades carnavalescas de rua. Porém o fato de que passeata de carros, sejam estes de qualquer espécie, já não consistia, como anteriormente observado em novidade para Petrópolis, e talvez até possamos dizer que o Corso teve sua origem nos desfiles do domingo de carnaval petropolitano.

Para a comunidade petropolitana esta passeata sempre se constituiu em uma das partes mais brilhantes dos folguedos petropolitanos, isto podemos considerar pela presença da tradicional “Batalha das Flores” que se realizava na rua à frente do Hotel Bragança, atual Monsenhor Bacelar, seguindo em direção à Praça da Liberdade, atual Rui Barbosa. Apresentando inúmeros carros, em sua maioria carruagens e cabriolets. Completamente ornamentados, com seus condutores e famílias ora fantasiados ou não, jogando em sua maioria pétalas de rosas em direção ao publico que assistia das laterais, guardados por uma espécie de varais e divisórias com tapetes ou lençóis bordados, ou aos outros carros. Ao que tudo indica, a comitiva imperial vez por outra freqüentava os desfiles.

Uma foto presente no Arquivo do Museu Imperial, datada de 1880, fornece estas impressões, tão comuns na “belle époque” parisiense, com o mesmo desfile transposto para o Rio e para Petrópolis pela aristocracia veranista.

Porém se pudermos recuaremos no tempo para buscarmos antecedentes do Corso, até a anteriormente citada fotografia do Arquivo do Museu Imperial, e datada de 1868, onde um carro alegórico denominado de “encouraçado” construído por Antonio Brandão, famoso cocheiro de diligência, desfilava pelas ruas da cidade. Mas alguns estudiosos da colônia alemã em Petrópolis, indicam que os alemães, proprietários da maioria dos carros de carga da cidade, já passeavam pelas ruas da cidade com seus veículos completamente ornamentados até os muares.

O Corso continuou com o advento dos autos e dos lança-perfumes de então, até que findou como o do Rio de Janeiro, com o advento dos carros de capota inteiriça, e coincidentemente o inicio das Grandes Sociedades Carnavalescas do Rio.



Bibliografia

Fontes Primárias:

• Jornais da Hemeroteca Pública Municipal, Arquivo Histórico Municipal, Biblioteca Municipal de Petrópolis O Mercantil; O Paraíba.

Fontes Secundárias:

• CASCUDO, Luiz da Câmara,
• EDMUNDO, Luiz, Recordações do Rio Antigo,
• WILLEMS, Emilio, A Aculturação dos Alemães no Brasil, CEN/INL/MEC, Coleção Brasiliana, 1980.


1 Extraído do nosso ensaio, “Subsídios para a História: O Carnaval de Ontem”, publicado em caderno especial da Tribuna de Petrópolis em 04/03/1984, e adaptado para a presente publicação.
2 Willems, Emilio, A Aculturação dos Alemães no Brasil, CEN/INL/MEC, Coleção Brasiliana, 1980.
3 In, O PARAÍBA
4 os bailes carnavalescos iniciados em 1860 no Rio não estavam ao alcance de todos, nem de acordo com a moral de muitos, assim os policiais passaram a distribuir gratuitamente máscaras a quem quisesse brincar o carnaval ou seja "os mascarados avulsos" (in, Luis da Câmara Cascudo)
5 in, Luiz da Câmara Cascudo
6 Muitos hotéis no período aproveitavam para adaptar seus salões e depois denomina-los por teatros para a apresentação de grupos que vinham da Corte.
7 De propriedade de um italiano da Corte.
8 O Mercantil
9 festa popular que possui suas origens na festa portuguesa introduzida no Brasil desde o período colonial
10 O famoso bambu.