sábado, 22 de janeiro de 2011

CARNAVAL EM PETRÓPOLIS NO SÉCULO XIX

• CONTRIBUÍÇÃO À HISTÓRIA SOCIAL PETROPOLITANA:
SUBSIDIOS PARA UMA HISTÓRIA DO CARNAVAL EM PETRÓPOLIS NO SÉCULO XIX (1)

“E o povo? Esse, também, se divertia.
Logo às primeiras horas da manhã, os escravos iniciavam, barulhentamente, o entrudo, pelas senzalas e pelos logradouros da cidade.
O Rio de Janeiro acordava em alvoroço, ouvindo os ambulantes que já apregoavam as mercadorias da ocasião:
- Porvio! Limão de chêro, de toda cô. Bom chêro. Bom chêro.
Um pacote de polvilho custava, no começo da passada centúria, cinco réis e uma dúzia de limões d’água, cheirando a canela, dois tostões. O limão vinha no tabuleiro da preta e o pacote de pó de goma no cesto ou no samburá.
- Porvio! Limão de chêro!
As crianças saltavam da cama, gritando: Entrudo! Entrudo! Entrudo!
E iam provocar a vizinhança, bombardeando as urupemas e grades de pau com bolas de cera cheias de água, que lhes davam as famílias, atrás das rótulas, a cocar a cabeça do primeiro que surgisse para responder ao desafio. Dentro em pouco generalizava-se o combate. A labareda de alegria pegava fogo em todo o Rio de Janeiro. E os limões de cheiro a cruzar!
Entrudo! Entrudo! Entrudo!”

(in, EDMUNDO, Luiz, Recordações do Rio antigo)

O texto acima que bem caracteriza o “carnaval” carioca, popular, genuinamente brasileiro em pleno século XIX, de nada teria a ver com o carnaval que se desenvolveu em Petrópolis a partir dos registros impressos da década de 50 do mesmo século. Embora o carnaval petropolitano nada de novo possuiu-se para se acrescentar à história desta festividade folclórica de herança portuguesa tão presente em nossa sociedade. Todos os elementos que no município encontramos foram transferidos da Corte e das demais regiões e adaptados ao cenário local, principalmente a partir da presença dos “veranistas”.

A “Petrópolis colônia”, possuía em sua constituição demográfica uma grande massa de colonos alemães, vindos de províncias “esquecidas” da Alemanha, campesinos em sua maioria, ignorantes, e cujo germe de festividade não passava de seu próprio folclore e costumes, comemorações camponesas as épocas de plantio e colheita, tão comuns herdadas do cotidiano feudal europeu.

Por outro lado o contexto dominante entre os colonos era de protestantes, com um perfil tão alto que desestimularia toda e qualquer outra forma de diversão que a própria moralidade religiosa condenasse por princípios. E os alemães e seus descendentes por sua formação aceitavam sem contestação tendo por base seu limitado universo cultural.

Outro fato que poderia ser constatado era o de que os prazos coloniais ficavam distantes do centro, isto é, das terras de reserva imperial onde se situava o sitio do município. Só com o passar das décadas e a falência da colônia agrícola é que por sobrevivência os mesmos tornam com maior freqüência ao centro da cidade para a prestação de serviços diversos como os domésticos e outros, aos hotéis, legações, casarões e a Corte.

Emilio Willems (2) , em seu trabalho sobre cultura alemã no Brasil, acrescenta não haver encontrado até a data do término de sua obra, em suas pesquisas, quaisquer indícios sobre se ocorreram influências alemães no carnaval carioca, e, caso tenham ocorrido, foram imperceptíveis. O único dado ressaltado por Willems, foi o de que já na primeira metade do século passado, haver constituído entre os alemães na cidade do Rio de Janeiro uma sociedade que, procurou transferir a “tradição carnavalesca” alemã, se assim puder ser considerada, mas de seus resultados nada foi divulgado, ou observado sociologicamente ou historicamente pudesse ser considerado.

Petrópolis possuía equilibradamente, por deliberações políticas quando da organização política da Colônia, uma divisão nos componentes da população nacionais e coloniais, o que determina que, a principio, ocorra um afastamento cultural entre ambas, pelo anacronismo de seus costumes e idiomas. Notamos pelo decorrer de nossas pesquisas que também, o pequeno número de escravos que perfazia a população petropolitana de então, não era um número suficiente para poder deixar patente seus costumes, restando-nos somente os nacionais, aos quais se deve a entrada, ora popularmente com o “entrudo”, ora aristocraticamente com os carnavais de máscara e salão, o privilégio de transplantarem tal modelo de festividade tão presentes na Corte e nas demais capitais de províncias.

Mais tarde, talvez, os demais tenham produzido efeitos introdutórios nos hábitos de festividade, com o advento das sociedades e grêmios fundados em nossa comunidade assim como outras nacionalidades que adicionaram ao carnaval brasileiro alguns de seus elementos.

Em nossa volta às origens do carnaval petropolitano, fundamentamos nossos registros em 1858, com os informes da imprensa local, onde em edições de fevereiro, como ocorreu o mesmo em nosso município (3) .

Ocorreram bailes mascarados (4) concorridos nos três dias de festa no Hotel Bragança, e na terça-feira, dia “em que não choveu”, muitos máscaras passearam à cavalo e de carro pelas principais ruas da cidade, acompanhados ao largo pelo povo. Nos bailes muito se dançou “e apareceram alguns máscaras curiosos e outros provocadores”.

A primeira critica política também aqui foi encenada. No domingo, “dois máscaras andaram medindo a distância nas ruas para a colocação dos lampiões”, em uma nítida alusão à falta de iluminação na cidade. A municipalidade já nem mesmo completara um ano de vida, e os problemas que à esta época tornavam-se comuns, não deixavam de estar presentes em nossa cidade. E uma critica social presente na ousadia feminina de uma veranista, na terça-feira, não se podia deixar de notar “uma senhora com uma saia balão desconforme que provocara risos e atenções de todos”.

O mesmo jornal também nos oferece a informação de que os festejos desta época foram uma iniciativa do sr. Augusto da Rocha, comerciante vindo da Corte e estabelecido no município. Que talvez tenha patrocinado alguns máscaras de ruas ou baile nos salões do Hotel.

Em uma crônica da época, assinada pelo pseudônimo de Hudibras, nos fornece uma análise do requinte aristocrático, elitista e preconceituoso do carnaval local. Em suas passagens podemos notar que no Hotel Bragança e nos passeios das ruas, era a elite que predominava. E quando ele assinala que seu criado estava com uma “alemasita gelada” ao braço, observa-se ainda o preconceito contra os colonos por parte da sociedade nacional, principalmente a aristocrática veranista. Narra o cronista ainda sobre o consumo da cachaça e do champanhe, além de frisar que lá se vão os antigos tempos da seringa de limões de cera, em uma alusão de que o “entrudo” já houvera ocorrido em Petrópolis, e entrara em uma fase de recesso ou mesmo opressão.

Já nos registros do mesmo jornal em 1859, encontramos “não foi assim um carnaval tão emocionante e competitivo”, relata, “pois é o ano das eleições, e esta, sim, é o maior carnaval”, os jornais do período em Petrópolis sofriam uma “certa” condição de repressão, não somente pela presença da Corte em seu longo veraneio, como por sobrevivência ao público que se destinava na Colônia. Por tal, criticas como a analogia presente acima, eram raras.

De 1860 a 1874, ficamos sem qualquer relato histórico pois não possuímos qualquer documento impresso comprobatório nos arquivos. É o tão “decretado” fim de 14 anos de nossa história, que jamais poderão ser reabilitados pelas páginas da imprensa. Ressalva se faça a uma fotografia de um grupo carnavalesco, pertencente ao Arquivo do Museu Imperial, e datada de 1868, onde um carro alegórico denominado de “encouraçado” e que havia sido construído por Antonio Brandão, famoso cocheiro de diligências no município, era a sensação da época visto pelo inúmero grupo de populares presentes nas proximidades do mesmo. Talvez neste período possam ser estabelecidas até informações sobre o aparecimento do “Zé Pereira” em Petrópolis, já que este surge em 1846, em um acontecimento que segundo muitos estudiosos revoluciona o carnaval carioca. Zé Pereira, o tocador de bumbo, que para alguns era o nome ou apelido dado ao cidadão português Jose Nogueira de Azevedo (5) .

Nossas pesquisas prosseguem pelo jornal O MERCANTIL, em 1875, que inicia seus relatos afirmando haver sido o carnaval deste ano “chuvoso e fracamente concorrido, não possuindo a mesma animação dos anos anteriores”. Afirma haver sido diminuto o número de máscaras, e, assim mesmo, desprovidas de qualquer espírito. Quanto aos bailes de carnaval, ou de salão como se afirmava, como os do Teatro Bragança (6) , foram muito fracos, sem maiores descrições quanto ao mesmo. Assinalando também que somente cinco carros com máscaras haviam aparecido pelas ruas. É aqui onde o jornal oferece um dado importantíssimo, uma referência à crise econômica da nação que acometia a população na época, o que para o editor está comprovado pelo pequeno número de veículos a desfilar, porém adicionaremos um dado também importantíssimo a constância das chuvas no verão petropolitano, que tornavam vez por outra intransitáveis às ruas do centro, transformando-as em “rios de barro”.

O mesmo jornal inicia suas edições de 1876, lamentando não haver tido grande influência as festividades dos anos anteriores, e que o fracasso se repete. Uma ressalva se faz ao domingo e a terça-feira onde os artistas da Cia. Casali, uma companhia circense (7) , haverem percorrido as ruas “ricamente fantasiados, ao som de música italiano”, sendo que na terça-feira voltam a desfilar em carros e promovem à noite um “baile mascarado” no circo.

“Muito povo nas ruas e poucas máscaras, os divertimentos vão caindo em desuso”, é o comentário presente no mesmo jornal, porém releve-se que máscaras e fantasia pelos seus preços não estavam à altura do poder aquisitivo da população, sendo objeto ao alcance dos veranistas. Outra observação a ser produzida, é o de que quando D. Pedro e sua família viajava ou não subia a serra, o movimento da cidade tornava-se muito fraco.

Já em 1879, segundo o jornal(8) , o carnaval volta à sua habitual alegria. O “entrudo” se faz presente relembrando os tempos antigos, e muitos mascarados desfilam. Nos salões de do Hotel de Bragança e Rougemont, os bailes são concorridos e nas ruas aparece “um navio” – carro alegórico de espírito critico, em alusão aos banhos de água do “entrudo” – que não percorre todas as ruas por causa da chuva, isto ocorreu na terça-feira à tarde. Ainda a mesma edição. Aproveita para acrescentar que os festejos transcorrem na maior “moralidade”, só ocorrendo “um pequeno incidente”, alguns máscaras do alto de um carro jogaram pedras em alguns senhores, o que provocou um “bate-boca” sem maiores conseqüências.

Podemos também observar nesta edição, um anúncio comercial, o primeiro caracteristicamente carnavalesco, o de uma costureira da Corte, que geralmente estabeleciam-se no centro do Rio de Janeiro, Mme. L. Niobey, que se oferece para confeccionar fantasias, e fornece como endereço curiosamente o número de um tradicional hotel, onde talvez estivesse hospedada. Este fato demonstra a realidade do carnaval da época ainda em pleno veraneio. Um carnaval para poucos dentro do que a imprensa caracterizava à época os folguedos, excessivamente caros, presente aos bailes dos Hotéis e aos desfiles dos carros de ruas. Preconceituosamente o “entrudo” era observado como o carnaval do “populacho” e por tal criticado por longo tempo pelas suas extravagâncias e excrescências, até que poucos da elite também venham a aderir.

A data de 1880, torna-se marcante. Petrópolis encontra-se lotada com a epidemia de febre amarela que acomete o Rio de Janeiro, e proporcionando como alternativa a fuga, o que acaba tornando o carnaval petropolitano na visão dos jornais locais, competitivo, principalmente nos aristocráticos salões como o do Rougemont.

Um cronista da época que se autodenominava “Dominó cinzento”, em uma alusão a mesma fantasia na quarta-feira-de-cinzas, e possivelmente uma pessoa com grande acesso a Corte, para gozar de intimidades, tecia longas “fofocas” a respeito das ditas personalidades que por aqui se encontravam a “brincar”, “O Braz Mimoso com dna. Del Lago, o P. Com a G. para desgosto da I, que vingava-se requebrando nos braços do pateta C...”, cita também que grande número de políticos do Rio, aqui se achavam presentes nos salões.

Porém duas referências em sua crônica nos chamam a atenção. A primeira é ainda o forte sentimento preconceituoso ao descendente alemão, e o segundo à cidade, “... que me cobrirão de apupos ao verem que eu deixava a Corte para vir brincar na roça...”. Como bem observado “uma roça” que se prestava a refúgio dos que fugiam da “peste-amarela”. Outra informação importante que se segue relacionada pelo cronista são os denominados atos de “moralidade” de então, era a de um “gracioso da Corte” que, irritado com os perfumes e bisnagas, apedrejava os mascarados, tanto senhoras, cavalheiros e crianças que passavam de carro.

Porém marcante mesmo foi a passagem de “um carro-bomba..., a maior pilhéria do ano”, e o das decorações dos salões, que neste período eram pomposas e requintadas para os bailes carnavalescos. Segundo observamos a necessidade do mesmo carro existia porquanto ocorriam reclamações quanto a constante poeira nas ruas centrais, e por outro lado os incêndios que ocorriam nas velhas casas construídas de madeiras que se faziam presentes desde a época colonial e vez por outra uma pegava fogo, não havendo serviço de “bombeiros” na cidade. Quando de grandes incêndios como os que ocorreram na primeira década do século XX, a ajuda do serviço de bombeiros das fábricas era de grande préstimo ao serviço público municipal.

Como podemos observar até aqui, o carnaval petropolitano se fazia mais presente pela presença da elite da Corte na cidade. Com o desfile dos mascarados em sua maioria oriundo de famílias que se destacavam, econômica ou politicamente na Corte, que desfilavam suas brincadeiras ante uma população nativa completamente extasiada, já que o “entrudo” sofria forte repressão, e era um costume popular mais presente na sociedade carioca. Petrópolis por sua formação caracteristicamente alemã à época, observava a presença dos foliões veranistas, que se enclausuravam nos bailes promovidos nos ricos palacetes e hotéis, além dos desfiles de carros que evoluem para a “batalha de flores” e finalmente para o “corso”, ricamente ornamentados com grupos familiares aristocráticos lançando seus limões de cheiro, e flores sobre a população que maravilhada os apreciava.

Como vemos, não notamos até então qualquer indicação de que o carnaval toma em qualquer época, em Petrópolis a conotação de uma festa popular, apesar dos anúncios dos bailes nos salões serem observados nos programas como “populares”.

Como pode ser observado nos primórdios da cidade o “entrudo” se fez presente, mas a elitização da festa e a forma opressiva como o “entrudo” era condenado (9) , quase fez com que desaparecessem em nome de uma “festa de moralidade” como seria a dos “máscaras”, salão e batalhas de carros.

ENTRUDO: UM RETORNO QUE ASSINALA O FIM

O ano de 1881, em Petrópolis pode ser considerado o marco do retorno às tradições, como o reaparecimento do “entrudo” e a presença do povo nas comemorações carnavalescas. Porém sem que as demais características elitistas até então presentes fenecessem. E o revigoramento, até passageiro neste período do “entrudo”, fornece uma nova possibilidade de análise sobre a participação popular nas festividades locais.

Transcreveremos textos de noticias e crônicas do jornal O MERCANTIL, para melhor ilustrar o exposto acompanhado por alguns comentários e análises.

Como o jornal se apresentava publicado duas vezes por semanas, coincidentemente suas edições geralmente surgiam após os folguedos. “...que o carnaval em Petrópolis este ano esteve desanimado e quase passou desapercebido...”, o comentário nos remete a uma reflexão ante as demais descrições. Desapercebido por parte de quem? Da elite veranista!

“No primeiro dia à tarde, percorreram as principais ruas da cidade os grupos musicais das sociedades, Filarmônica e da Carlos Gomes e poucos máscaras avulsos, em sua maior parte crianças...”

“Quanto aos bailes noturnos nos salões Floresta e Bragança foram muito concorridos...”

“A ordem pública manteve-se na altura da índole pacifica de nossa população, pois não houve de registrar nenhum só ato de desordem ou desacato aos foliões...”

“No mais, noticia-se que o Club dos Terríveis saíram de sua caverna para os bailes, protestando contra o entrudo...”

“Em compensação tivemos um entrudo furioso, porém que não divertiu o povo...”

A imprensa como já dito anteriormente representava a minoria da sociedade local, e tornava-se porta-voz da mesma em sua luta contra o costume do “entrudo”. Quando o redator assinala que os bailes noturnos foram muito concorridos, foi pelo fato de não estarem presentes elementos da população, e os bailes distarem dos folguedos de rua, um ambiente que apesar de sempre anunciar que era popular, restringia a presença da população. Era onde a aristocracia veranista se sentia à salvo do “entrudo”, e porque o mesmo à noite não acontecia, já que a ordem pública das ruas se fazia mais opressiva.

Apresenta duas novidades, um grupo de foliões caracterizados dentro dos salões protestando contra o “entrudo” e crianças divertindo-se com máscaras e grupos musicais nas ruas.

De um curioso “folhetim” publicado no O MERCANTIL, podemos destacar algumas informações relevantes assim como uma parodia:

“Além das noventa e oito fábricas que trabalharam dia e noite na manufatura de limões-de-cheiro, foram importados da Corte para esta cidade 225 mil dúzias de balões de borracha, contendo cada um litro e meio de água, os quais contribuíram em grande parte para aumentar o volume das águas do canal, como se não fosse suficiente a chuva que há quinze dias, nos tem molhado a paciência...”

Apesar do exagero, do cronista, podemos observar que se comercializara um grande número de bisnagas, o que mais uma vez comprova que o “entrudo” se revitalizara por intermédio dos populares. E continua a pilheria além de denunciar o fracasso no comércio das tradicionais máscaras. Por outro lado o texto do folhetim, ainda indica os comerciantes locais, descendentes de alemães ou industriais que se aproveitaram para fabricar as bisnagas.

“Dizem mais, que os srs. Kallembach, Boller, Peifer e Guilherme fizeram um convênio e transformaram em seringas todas as folhas que tinham em seus estabelecimentos, porém não achando os entusiastas do entrudo que esta medida aquática era o suficiente para produzir um dilúvio artificial, pediram por empréstimo a bomba municipal contra incêndios e revertido em arma de combate”

“As máscaras apodrecem nas prateleiras das lojas, os costumes de fantasia aí estão dependurados às portas dos armarinhos, coberto de pó e traça... mr. Chiezzi, laborioso artista levou semana e semanas... trabalhando para surtir a sua loja com todos os artigos preciosos para o carnaval.”

“Pobre artista! Não se lembrou do entrudo...”

Devemos ainda considerar o que já foi mencionado da carestia das fantasias ou máscaras, em comparação com os “limões-de-cheiro”

O “entrudo” era não somente uma festa “barata”, como ao alcance do “populacho”. Não respeitava sexos, idades ou posições, e além disto não havia legislação vigente que o proibisse, não possuindo a cidade nem um código de posturas que previsse os efeitos. Tanto semelhante era uma verdade para a época que até a bomba municipal chegou em verdade a ser utilizada com o consentimento e alegria do fiscal, assim podemos observar que muitos membros da elite acabaram por juntar-se aos populares no festejo, pois o fiscal não se atreveria a consentir a utilização da mesma se não fosse do consenso de seus superiores.

O jornal ainda afirmava com um certo exagero, que eram milhares de esguichos de seringas, bisnagas, baldes, tinas, panelas, bacias ou mesmo qualquer outro recipiente que acomodasse o precioso líquido. Existindo até bombas fabricadas caseiramente com taquarussu (10), onde se forjava um orifício de um lado, e na extremidade uma vara com uma bucha de papel ou pano, servindo para aspirar e jorrar água, como descrito em noticiário.

Para o mesmo jornal a população mesmo ao som dos “Zé Pereiras”, das zabumbas, das buzinas ou músicas, preferia o entrudo.

“Na rua Dona Januária, travou-se um ferino combate entre dois grupos...”, e continua afirmando que o vitorioso junto ao derrotado passavam por todas as ruas infundindo o medo, e que as vezes os mesmos eram interrompidos por gritos alarmantes e jocosos “Aí, vem a bomba municipal, era para os presentes o mesmo que dizer aí vem o diabo”.

Janelas e portas fechavam-se, só as moças saiam para enfrentar, sendo assistidas por uma multidão ao largo e longe dos jatos. Nas ruas também transportava-se em carros ou carroças, tinas e outros recipientes repletos de água.

O “entrudo” também se realizava nos interiores dos lares, verdadeiras “ciladas e traições” eram preparadas com requintes de detalhes, “um verdadeiro troca-roupas para determinados infelizes...”.

Os participantes do “entrudo” não satisfeitos com o material utilizado, adicionavam também outros elementos ao material, tais como: talco, farinha de trigo, e “...até urina e fezes...”

Porém o pior do “entrudo” era reservado pelos membros da elite veranista que aderia às pessoas negras. Muitos indivíduos de cor eram vitimas de efeitos imediatos, tornando-se figuras grotescas e de total deboche em mãos dos mesmos “pseudo- foliões”.

O “entrudo” nestes anos sinaliza com o seu desuso, pois nos anos seguintes seu registro é mínimo, ocasional, e reservado às regiões mais afastadas do centro e ao fim do século XIX se extingue. Os costumes carnavalescos se transformam, assim como a moralidade religiosa na cidade que com a predominância católica avança cada vez mais procurando homogeneizar a população.

O CORSO


Muitos estudiosos situam que a moda do Corso havia sido lançada em fins da primeira década do século XX no Rio de Janeiro, e que o mesmo sobreviveu até 1930, quando do aparecimento das primeiras sociedades carnavalescas de rua. Porém o fato de que passeata de carros, sejam estes de qualquer espécie, já não consistia, como anteriormente observado em novidade para Petrópolis, e talvez até possamos dizer que o Corso teve sua origem nos desfiles do domingo de carnaval petropolitano.

Para a comunidade petropolitana esta passeata sempre se constituiu em uma das partes mais brilhantes dos folguedos petropolitanos, isto podemos considerar pela presença da tradicional “Batalha das Flores” que se realizava na rua à frente do Hotel Bragança, atual Monsenhor Bacelar, seguindo em direção à Praça da Liberdade, atual Rui Barbosa. Apresentando inúmeros carros, em sua maioria carruagens e cabriolets. Completamente ornamentados, com seus condutores e famílias ora fantasiados ou não, jogando em sua maioria pétalas de rosas em direção ao publico que assistia das laterais, guardados por uma espécie de varais e divisórias com tapetes ou lençóis bordados, ou aos outros carros. Ao que tudo indica, a comitiva imperial vez por outra freqüentava os desfiles.

Uma foto presente no Arquivo do Museu Imperial, datada de 1880, fornece estas impressões, tão comuns na “belle époque” parisiense, com o mesmo desfile transposto para o Rio e para Petrópolis pela aristocracia veranista.

Porém se pudermos recuaremos no tempo para buscarmos antecedentes do Corso, até a anteriormente citada fotografia do Arquivo do Museu Imperial, e datada de 1868, onde um carro alegórico denominado de “encouraçado” construído por Antonio Brandão, famoso cocheiro de diligência, desfilava pelas ruas da cidade. Mas alguns estudiosos da colônia alemã em Petrópolis, indicam que os alemães, proprietários da maioria dos carros de carga da cidade, já passeavam pelas ruas da cidade com seus veículos completamente ornamentados até os muares.

O Corso continuou com o advento dos autos e dos lança-perfumes de então, até que findou como o do Rio de Janeiro, com o advento dos carros de capota inteiriça, e coincidentemente o inicio das Grandes Sociedades Carnavalescas do Rio.



Bibliografia

Fontes Primárias:

• Jornais da Hemeroteca Pública Municipal, Arquivo Histórico Municipal, Biblioteca Municipal de Petrópolis O Mercantil; O Paraíba.

Fontes Secundárias:

• CASCUDO, Luiz da Câmara,
• EDMUNDO, Luiz, Recordações do Rio Antigo,
• WILLEMS, Emilio, A Aculturação dos Alemães no Brasil, CEN/INL/MEC, Coleção Brasiliana, 1980.


1 Extraído do nosso ensaio, “Subsídios para a História: O Carnaval de Ontem”, publicado em caderno especial da Tribuna de Petrópolis em 04/03/1984, e adaptado para a presente publicação.
2 Willems, Emilio, A Aculturação dos Alemães no Brasil, CEN/INL/MEC, Coleção Brasiliana, 1980.
3 In, O PARAÍBA
4 os bailes carnavalescos iniciados em 1860 no Rio não estavam ao alcance de todos, nem de acordo com a moral de muitos, assim os policiais passaram a distribuir gratuitamente máscaras a quem quisesse brincar o carnaval ou seja "os mascarados avulsos" (in, Luis da Câmara Cascudo)
5 in, Luiz da Câmara Cascudo
6 Muitos hotéis no período aproveitavam para adaptar seus salões e depois denomina-los por teatros para a apresentação de grupos que vinham da Corte.
7 De propriedade de um italiano da Corte.
8 O Mercantil
9 festa popular que possui suas origens na festa portuguesa introduzida no Brasil desde o período colonial
10 O famoso bambu.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ESCRAVISMO E ABOLIÇÃO EM PETRÓPOLIS

  • CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA SOCIAL PETROPOLITANA

ESCRAVISMO E ABOLIÇÃO EM PETRÓPOLIS[1]

“O Balaio, o Balaio chegou

Cadê branco? Não há mais branco

Não há mais sinhô”

( Cântico das lutas da Balaiada, in, Luiz Luna)

“Ó didê, Baba um pê

Levanta-se, o pai está chamando...”

(O Caçador e os Orixás do Mato, in, Deoscoredes M. dos Santos)

Produzir um trabalho sobre o percurso histórico da raça negra em nossa comunidade é na maioria das vezes um trabalho que aparenta relativa facilidade de ser produtivo mas, também torna-se um tanto difícil, quando os elementos que temos que pesquisar se encontram na quase sua totalidade dispersos, e em locais às vezes o mais inacessível.

Portanto, procuramos formular uma síntese, ou melhor um “alinhavado” de textos, já anteriormente produzidos, e que até hoje possuem um denotado grau de importância cientifica em nossa cidade. São estes textos trabalhos fundamentais elaborados pela Comissão do Centenário, produzidos por vários autores. E para complementar, como não podia deixar de ser, recorremos ao constante manancial de informação que são os jornais que compõem a Hemeroteca Publica Petropolitana.

A expressão acima utilizada “fácil”, tem por característica não a depreciação do trabalho, mas o fator que o movimento histórico do negro em nossa comunidade difere das dos demais por uma única e atenuante característica; a da densidade demográfica – a não grande representatividade numérica em nosso quadro populacional, através das várias épocas que antecederam ao último quartel do século.

Porém, ao tempo ela torna-se significativa, desde que possamos formular um pequeno quadro histórico na formação social.

AS OBRAS DO CAMINHO NOVO

Nossos registros começam por volta do inicio do século XVIII, quando das aberturas das picadas para construção do Caminho Novo para as Minas Gerais. Em documento um dos pioneiros desta construção, Garcia Rodrigues Paes, filho do famoso “bandeirante das esmeraldas”, que é declarado “falido” não podendo mais continuar seu intento de abrir a nova estrada, em virtude de o esforço haver consumido todos os bens que lhe pertenciam, bem como aqueles que havia herdado. Este “enfraquecimento capital”, resultou nas seqüentes fugas de escravos, mão-de-obra a este pertencente, fruto do capital investido[2].

Fugas que freqüentemente levavam estes escravos a se refugiarem em nosso solo, constituindo na maioria das vezes “arremedos” de quilombos.

Na maioria das vezes, o sucesso da fuga, das diversas frentes ou locais de trabalho, para um local totalmente desconhecido, só pode ser visto, na medida em que o ideal de um quilombo, torna-se significado máximo do enraizamento histórico no processo social dos grupos, funcionando como encontro de identidades raciais e sociais. Enfim, a perpetuação étnica.

DECLARAÇÃO DE POSSE

Aberto o caminho, surge a necessidade do abastecimento, do povoamento a margem do mesmo. Daí a fórmula de “doação de sesmarias de terras”, porém para se tornar sesmeiro, as mais variadas dificuldades se interpunham. Eram necessárias condições não somente materiais, como também financeiras, para comprovadas estas, receber a dita doação. Seu principal requisito era:

“... achar-se o suplicante com escravos bastante para poder povoar... com muitos filhos de escravos para poder cultivar... por ter escravos e mais posses necessárias para a cultura...”;

era o que constantemente declaravam as petições.

Quando do trabalho de pesquisa levado a cargo pela Comissão do Centenário, estes não obtiveram, pelo escasso tempo qualquer petição que datasse anteriormente à 1712, e que pudesse evoluir o painel histórico de nossa cidade[3].

Portanto só a partir desta data é que se podem afigurar de forma quase que definitiva a existência de negros-escravos nas fazendas erguidas em solo petropolitano.

OS REGISTROS DE BATIZADOS

Frei Estanislau Schaette nos fornece vários documentos dos quais retiramos um que consideramos exemplar: a análise do situacionismo religioso e moral dos escravos pertencentes aos fazendeiros. Do mais antigo livro de batizados da Paróquia de Inhomirim, à folha 76, que possui o seguinte termo:

“... Aos 26 de outubro de 1734, nesta freguesia da Piedade de Inhomirim foi apresentado a Rev. Pe. Manoel Antonio um batizando, de licença ... e puz os santos óleos a Jacinta, mulatinha, na capela da Conceição das Pedras do Caminho das Minas, filha de Maria; escrava de Miguel correia, foram padrinhos João Rodrigues, filho de Pedro Moreira e sua Mãe Ana Cabral e se fez em 21 do mês deste ano, todos moradores desta mesma no dito caminho. O Vigário João de Matos dos Santos”

Frei Estanislau acrescenta ser este, segundo suas pesquisas, o primeiro batizado realizado em terras petropolitanas. O patrão é um dos mais antigos proprietários de “serra acima” como provam os freqüentes termos nos livros da paróquia.

Observação se faça, a de constantemente os patrões infligirem seus próprios costumes a seus escravos, a obrigação religiosa em si é um grande exemplo de tal, como se processasse o barbarismo e a promiscuidade no seio social negro. Outro elemento que pode ser amplamente questionado é a utilização do termo “mulatinha”, pelo vigário o que nos conduz a inúmeras conjecturações no que se refere ao “relacionamento inter-étnico”.

REGISTROS DE TESTAMENTOS

Outra fórmula de ser pesquisada a posição do negro em nossa comunidade são os testamentos dos fazendeiros. Dentre os vários citados pela Comissão do Centenário, transcrevemos extratos da primeira proprietária em solo petropolitano. D. Águeda Gomes de Perada (família Proença), a qual declara a posse de “... 39 escravos, entre grandes e pequenos, velhos e moços...”.

Outro registro, também é o de Antonio Proença, que, em 1737, ao falecer-lhe dois escravos na fazenda Tamarati, mandou leva-los a Suruí onde se processou o enterro religioso de ambos, já que todos os seus escravos adultos pertenciam a uma das irmandades da Matriz, das quais ele, o patrão, era seu membro de destaque[4].

Pelos números que desde já apareceram neste trabalho, pode-se por se assim dizer, ser a população escrava em nosso território, majoritária em relação a branca senhorial, porém este número se torna ilusório, em virtude dos processos que se abatem, tais como falecimentos por exaustão ao trabalho forçado, doenças, fugas e outros.

Outra questão, é a de que no geral a maioria das escrituras que relacionam tópicos escravistas, nos apresentam um perfil em que o escravo é para seu dono, um objeto de posse, instrumento de produção a valor ouro, em uma sociedade construída por braços negros, onde o branco direciona o social, controlando os lucros (Antonil).

VISITANTES ESTRANGEIROS EM PETRÓPOLIS

Muitos foram aqueles que por aqui transitaram, e hospedaram-se nas fazendas, em diversas direções. Porém poucos mencionaram em seus diários de viagem sobre a situação escravista das fazendas.

John Mawe foi o primeiro visitante estrangeiro, e passando pela fazenda do Pe. Correia comentou:

“... ser o Pe. Senhor de numerosa escravaria, grande parte da qual ocupada em moldar ferraduras para os animais (NA: o que já constituía uma pequena e primitiva industria manufatureira servil), com o ferro fabricado pelo processo sueco, trabalhado a frio, depois de lho darem forma na forja...”.[5]

As ferraduras eram constantemente procuradas nesta estrada de freqüente trânsito.

Já, o Barão Jorge Antonio Schaeffer, dizia que:

“... os escravos do Pe. Fazendeiro, eram tratados com indulgência e constantemente ocupados...”[6]

Alexander Caldcleugh, acrescentara:

“... existir uma capelinha, ao lado da casa, onde o Pe. Reúne os negros e celebra a missa... Dedica o Pe. Grande atenção a esta raça e retribuem-lhe os negros por uma verdadeira adoração todas as noites, ao virem beijar-lhe a mão, observa se já tomaram banho, antes de irem se deitar...”.[7]

Caldcleugh, ainda nos fornece outra informação, só que sobre o que se sucedia na Fazenda da Mandioca, pertencente a Lagsdorff, cujo administrador “... lutava com a escassez de braços escravos...”.

Outro visitante a fazer suas apreciações foi John Luccock que esteve na Fazenda do Samambaia, de propriedade do sobrinho do Pe. Correia, o qual enriquecera muito depressa, empregando todo o dinheiro na aquisição de novos escravos, “... os quais tratava com rispidez...”, enquanto sua lavoura se encontrava exaurida, pela utilização dos métodos rudimentares, e pela não adubação.

Estas são em resumo, algumas das principais apreciações só lamentamos que as mesmas não sejam mais completas quanto ao comportamento e costumes sócio-escravistas nas ditas fazendas, o que em muito ampliaria a visão deste ensaio.

ALFORRIA EM TESTAMENTO

É o testamento, outro documento hábil nestas pesquisas por intermédio de um destes podemos avaliar o grau de posse dos escravos para seus senhores.

Tomamos como exemplo o testamento de Catharina Josefa de Jezus, datado de 26 de junho de 1823, e registrado no livro de no.1 do Curato de são José do Rio Preto, que vem a ser o atual distrito de nossa comunidade[8].

Era a dita Catharina Josefa de Jezus, proprietária da fazenda do Córrego Seco, e começa por uma longa descrição de suas posses, onde assinala a de 25 escravos, em seguida pede aos filhos-testamenteiros que se faça o inventário destas. E mais:

“... Declaro que o meu escravo João telheiro e a preta Maria já velha e cansada os deixo forros e livres de qualquer pensão, e esta verba lhes servirão de carta.

..............................

Item declaro que deixo à minha necta Inocência filha da dita minha filha Britis, o valor que for avaliado a Escrava Maria, que esteve em seu poder.

.............................

Item declaro que deixo o criolinho Saturnino, filho da minha escrava Izidora, a meu neto Francisco José Maia...”.

Observamos presente neste testamento as primeiras informações de alforriamento de escravos que temos conhecimento em nossa comunidade, e que são em muito importantes, pois a proprietária faz liberta uma escrava doméstica de vínculo afetivo, permanecendo o restante, a maioria, que é significativo, a grande fortuna tutelado pelo regime e condicionado a transferências pelas conseqüentes vendas.[9]

NOTICIAS SOBRE POLICIAMENTO E PERSEGUIÇÃO DE ESCRAVOS FUGITIVOS

Antonio Machado relata um documento pelo qual José Cândido Fragoso é eleito para desempenhar as “árduas funções” de primeiro magistrado da freguesia de São José do Rio Preto. O capitão além de receber voluntários armamentos, obtivera carta branca para que processasse o ato de “limpeza das serras dos malfeitores e dos escravos refugiados nos quilombos que se davam também aos assaltos”.

Segundo Machado, os escravos muitas das vezes se uniam aos malfeitores. Estas são informações importantes, pois denunciam a existência da formação de quilombos nestas terras, e do abrigo de “bandoleiros” que espreitavam as tropas de muares que seguiam em rota às Minas, e das Minas, além dos constantes assaltos às fazendas. A grande novidade é a chamada “associação” entre ambos, algo que pode e deve ser muito discutível[10].

QUILOMBOS

Binot, artista e paisagista, ao escrever artigos para o “Parahyba”, também fornece informações importantíssimas para análise da questão dos quilombos em Petrópolis. Texto que segue:

“A Praça de Coblentz, região da confluência, hoje Passeio Público (NA.: atual Palácio de Cristal), antes da fundação da Colônia, isto é, antes de 1838, estava ainda virgem de plantas humanas, a não ser de negros fugidos, porque no lugar onde está a casa do Sr. Comendador Bernardes (esquina de 7 de abril com Piabanha), descobriu-se um quilombo com uma grande porção de terreno cultivado”[11]

Este é um fidedigno testemunho das ações correntes dos escravos fugitivos nas terras petropolitanas. Binot ao acrescentar que “existia um terreno cultivado”, forneceu a informação de que tal quilombo já possuía uma estrutura agrária, o que conseqüentemente nos leva a dedução da existência de uma micro formação societária no local.

Quilombo, lugar que se assemelha a “terra da promissão”, um ponto de liberdade. A grande questão é a de como esses grupamentos de escravos fugitivos e carentes de informações para manterem uma memória social, ou, uma história, chegaram a idéia de quilombo tão próxima daquela que lhes foi transmitida pelas tradições vulgares. A de .... onde liberdade era a prática, e as ......-ancestrais se revigoravam.

OS ESCRAVOS NAS OBRAS DO PALÁCIO IMPERIAL & A DEFESA DO TRABALHO LIVRE - COLONATO

Dados os primeiros passos para a constituição da freguezia, surge o ideal e a vontade imperial de ergue o Palácio de Veraneio, segundo o exposto no contrato de arrendamento com Koeler. Para tal empreendimento, em 1845, são fornecidos 40 escravos para ínicio da construção, que posteriormente se processou a base da contratação dos colonos alemães[12], em substituição ao trabalho escravo.

Philipe Arbos, cita textualmente o relatório do Presidente da Província do Rio de Janeiro, datado de 1846, que à página de no. 92, fala acerca da justificação do trabalho do colono e sua superioridade econômica em detrimento do trabalho do escravo:

“... todos os que tem visitado a Colônia reconhecem a superioridade do trabalho livre, principalmente quanto ao processo empregado – a empreitada...”

acrescenta P. Arbos, que

“... os colonos sem pagos pela metade que os escravos, ganhavam por dia , duas ou três vezes mais.”.

Encontramos no relatório o que se segue:

“... os escravos ganhavam para seus senhores de 600 a 800 rs., os colonos de 1$400 a 2$000 por dia para si...”[13]

Outra menção é citada por Lourenço Lacombe, por uma análise as obras realizadas pelo serviço público da Província na Estrada de Petrópolis à Juiz de Fora:

“... sobre o serviço de manutenção da estrada, na qual nenhum escravo podia ser empregado, “pois assim o exige um regulamento geral, que se aplica a todos os trabalhos públicos de certa importância”.

Acrescenta, esse cuidado, em se excluir os escravos dos trabalhos públicos revelam uma tendência para uma emancipação a longo prazo (1865), o que assinalava o modo de pensar de D. Pedro II sobre o problema escravo[14].

MERCADO DE ESCRAVOS NA RUA DO IMPERADOR

Segundo informações de João Duarte da Silveira, tabelião e coronel da Guarda Nacional, em 1867, aqui existia o cidadão português, Joaquim Martins Correia, próspero comerciante e industrial, que chegara a Petrópolis desde o inicio de sua fundação. E que aqui o mesmo desenvolvera amplas atividades comerciais e industriais, havendo inclusive sido o fundador da Fábrica São Pedro de Alcântara[15].

Duarte da Silveira, cita que o mesmo Martins Correia, possuía um extenso comércio em vários prédios de sua propriedade no centro da cidade, e tinha licença para desenvolver atividades de compra e venda de casas, escravos, ou de qualquer outro objeto de valor. Isto denota um simples movimento comercial e de corretagem, mas em confronto com os livros municipais[16] do período, não encontramos menção ao termo “mercado de negros”, já que tal terminologia em muito se aplicava aos mercados livres de cidades como Rio e Salvador. E por Petrópolis pelos seus princípios econômicos não denotar tal necessidade.

TRAFICANTES DE ESCRAVOS NO CÓRREGO SECO

Segundo Philipe Arbos, Koeler, contava com grandes homens ao seu lado para defesa de sua teoria do Trabalho Livre Colonial. Um destes adeptos era Paulo Barbosa, o Mordomo Imperial, que freqüentemente intercedia junto ao Imperador, e o de mais dois futuros Presidentes da província, na questão da intensificação dos serviços de imigração, em um melhor aproveitamento dos colonos do que dos escravos, contra os que denunciavam a “utopia” do trabalho livre.

P. Arbos, cita que em relatório ao Imperador

“... a cidade progredira muito mais nos últimos quatorze anos sob esta política “colonista”, do que qualquer outra...”.

E que em certa discussão,

“... os traficantes de escravos também se irritaram; pois todos os argumentos lhes pareciam bons, e quando se tratou da escolha do Córrego Seco para localização de uma colônia, exploraram em seu prejuízo até o nome, como se significando falta d’água...”[17].

ANÚNCIOS NOS JORNAIS PETROPOLITANOS

São os jornais um veio inesgotável para a pesquisa histórica, onde os anúncios tem uma validade insuperável. Os anúncios refletem, com fidelidade, a formação da comunidade. Os anúncios dos velhos jornais não anunciam apenas a venda e a compra; eles trazem outra característica em sua entrelinha, a das emoções da comunidade: apelos, críticas, advertências, dores e alegrias, ódio e perdão.

Se nos detivermos no texto de um anúncio do período da escravidão, que não são poucos, atentamos para a noticia da fuga e, ao mesmo tempo para as alvíssaras prometidas pela sua captura. Destacando a figura do senhor de escravos, impiedoso, ganancioso e explorador do negro, sob todas as formas.

Assim, transcreveremos uns poucos que nos podem servir de ilustração:

“ATTENÇÃO.

30U000.

Fugio no dia 9 do corrente na rua de S. Clemente n.79 o preto de nome João, nação Moçambique, tendo vindo para aqui pequeno, é fula e anda môço, altura regular, é cosinheiro, já foi marinheiro, levou uma viola e roubou quando fugio uma porção de roupa fina preta e branca e um chapéo de palha cor de café, costuma diser que é forro e consta que anda com uma carta de forro falsa; roga-se aquém do mesmo possa dar notícias, ou apprenhender de dirigir-se à rua d”Alfândega, n.2, ou a casa acima, pois se gratificará bem, protestando-se desde já contra quem o tiver ocoutado.[18]

Uma análise breve deste anúncio do Parahyba, nos levaria a considerar o seguinte: era o escravo um servo de qualidades essencialmente domésticas, não somente por ser cozinheiro, mas também por seu patrão morar em uma zona urbana do Rio de Janeiro, e este até mesmo pode servi-lo como um “valete”. Sua nação é Moçambique, fula mais para mestiço que para negro propriamente. Moço e forte. A indicação de haver sido marinheiro lhe fornece características de esperteza além de um físico razoável. Se o patrão não estivesse mentindo quanto a notícia da carta de alforriação, esta informação se verdadeira, complementa seu comportamento malandro, e alimenta seu ímpeto de liberdade. Porém, vê-se bem que segundo informações do patrão, ele roubara roupas de fino trato. O anúncio termina com um veemente protesto contra os “coiteiros”, protetores ou “abolicionistas”.

“ESCRAVO FUGIDO

Fugio do lugar Secretario, Município da Parahyba do Sul, o escravo de nome Luiz, pardo; a pessoa que der noticias ou leva-lo a casa do Sr. Duarte pinto, nesta cidade, será gratificado se o exigir.[19]

“ESCRAVA FUGIDA

Pela Delegacia de Policia de Petrópolis se faz público que se acha presa na cadêa desta cidade a preta Maria de 56 annos, crioula, que diz ser escrava de Antonio da Cunha, morador adiante do Arraial de Santo Antonio dos Crioulos na Província de Minas.

Delegacia de Polícia, 20 de julho de 1880 – O Escrivão interino, Joaquim Ferreira de Andrade.[20]

ABOLIÇÃO PETROPOLITANA

O Mercantil de oito de junho de 1887, assinala que durante uma festa de cunho abolicionista, realizada no dia 07 no Palácio Itamarati, no Alto da Boa Vista, para solenizar o restabelecimento da saúde do Imperador. D. Pedro II, participou membros de uma comissão organizada na cidade de Petrópolis, e que para comemorar tal:

“... nada seria mais agradável ao coração de Vossa Majestade do que promover-se a libertação de escravos, a Comissão vem hoje apresentar a Vossa Majestade, sessenta e duas cartas de Liberdade como uma pequena prova do muito amor e respeito que consagra à pessoa de vossa Majestade...”.

Praticamente é o inicio da configuração abolicionista na terra que o Imperador tanto rendia sua presença.

Cerca de dez meses mais tarde, quando o Imperador se encontrava em viagens pela Europa, a Princesa Isabel ocupava como regente o trono do Império. Este fato contribuiu mais ainda para que o processo abolicionista que se arrastava por décadas tivesse seu término.

Assim sendo, em primeiro de abril de 1888, portanto a quarenta e dois dias da assinatura da Lei Áurea, da abolição geral, Petrópolis, em um domingo de festas:

“... as duas horas da tarde no Pavilhão Hortícola (Palácio de Cristal), tem uma promoção dos Autustos Principes. A Princesa Imperial Regente, junto ao Conde D’Eu, seus filhos, o presidente do conselho e distintos membros do Ministério e de delegações estrangeiras, além da Imprensa em geral promulga a libertação dos escravos em Petrópolis. O ato se inicia com o orador, Dr. José da Silva Costa, findo o qual, desfilaram os cativos matriculados existentes em Petrópolis e alguns de outros municípios. Sua Alteza graciosamente distribui as 120 cartas de liberdade que eram trazidas uma a uma pelos jovens príncipes, D. Pedro e D. Luiz. Finda a emocionante cerimônia lavrou-se o ato da solenidade, e as 16h30min, entre alegres vivas, termina a festa.[21]

Acentuamos que um dos cronistas do Mercantil assinalou o que se segue em sua crônica:

“... na maior parte os libertos são do município de Petrópolis, não se podendo felizmente declarar esta livre, por falta de acordo com três proprietários de escravisados...[22]

Porém, esta melancólica nota, não retira o registro histórico no que se refere ao “abolicionismo” em fato, em Petrópolis. Não seria o pioneirismo, já configurado por outra Província no Brasil, mas uma discreta comemoração.

Em 21 de maio, após a maratona abolicionista, a Princesa Regente junto a sua família é recepcionada pela população na Rua do Imperador com grandes festejos organizados pelos comerciantes locais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS[23]

A questão do negro em nossa sociedade não se resolveu somente com a abolição, nem será resolvido tão cedo, para muitos estudiosos, muito pelo contrário, foi com a abolição que os problemas mais se avolumaram, pois marginalizou a grande maioria da sociedade brasileira, que por sobrevivência foi obrigada a se deslocar para os grandes centros comerciais e industriais brasileiros, ou sua proximidade. Em nossa cidade vimos constatar que o número de negros em nossa sociedade proporcionalmente foi insignificante principalmente ao final do século XIX, devido ao contexto coloniza tório migratório alemão, e devido a sua miscigenação com o passar das décadas junto aos nacionais.

No inicio do século XX, o número de negros em uma estimativa seria proporcionalmente o mais baixo de todas as regiões do Estado, provavelmente 5% em toda a região que abrange o município. Esta estimativa poderia ser razoavelmente configurada, quando em entrevista à Tribuna de Petrópolis em 1983, Guilherme Eppinghaus, engenheiro civil e público, ex-secretário municipal no governo do Dr. Sá Earp, afirmou que na década de 20 só havia uma família negra habitando o “morro da Caixa D’Água”, atual 24 de Maio, assim mesmo, pois pertencera a empregado encarregado de cuidar da Caixa D’Água. E por outro lado questionado sobre a “Lapa petropolitana”, o Bairro Floresta, onde moravam “malandros-de-navalha e prostitutas” ele afirmou que na mesma década mencionada eles não passavam de aproximadamente umas 200 pessoas.

Para corroborar este fato temos o fato pertencente as estatísticas levantadas pela equipe da prof. Ismênia de Lima Martins, sobre a admissão do primeiro negro em uma industria petropolitana em 1911. Fato que também comprova o alto preconceito existente no industrialismo petropolitano com a mão-de-obra que não seja oriunda dos bolsões fornecedores formais, tanto o italiano como o alemão, ou alguns nacionais brancos.

A grande parcela que na atualidade forma a população negra de Petrópolis, a principio deslocou-se das fazendas próximas à região que chegaram em busca de melhores condições de trabalho, já que a grande maioria destas fazendas entraram em decadência principalmente com as crises do café. E mais tarde observamos o deslocamento de muitas destas populações das regiões mineiras que ao seguirem em direção ao Rio, passam por Petrópolis e fixam-se nas áreas limítrofes como a Baixada Fluminense, ou mesmo Petrópolis. Muitas destas populações negras das Minas Gerais, principalmente da área da zona da mata, chegaram nas décadas de 40 e 50 junto a migrantes nordestinos em fuga da seca.

FONTES

Fontes Primárias:

· Jornais (pertencentes à Hemeroteca Pública do Arquivo Histórico Municipal), principalmente o Mercantil e o Parahyba;

· Livros públicos municipais – Relatórios Comerciais e Industriais

Fontes Secundárias:

· VÁRIOS, in, Trabalhos da Comissão do Centenário de Petrópolis, 6 volumes, PMP, 1957, Petrópolis;

· LUNA, Luiz – O Negro na Luta Contra a Escravidão, Editora Cátedra, Rio de Janeiro, 1976;

· MARTINS, Ismênia de Lima – Subsídios para a História da Industrialização em Petrópolis, Centro de Pesquisas em História da Universidade Católica de Petrópolis, 1983, Petrópolis;



[1] Publicado em 12 de maio de 1984, no Segundo Caderno da Tribuna de Petrópolis

[2] Comissão do Centenário de Petrópolis, volume , pg. 41

[3] Ibid,pg. 241

[4] Ibid, pg 195/204

[5] Ibid, pg. 49

[6] Ibid, pg. 73

[7] Ibid, pg. 83

[8] o ensaio foi escrito em 1984, quando São José ainda não havia se emancipado de Petrópolis.

[9] Comissão do Centenário de Petrópolis, volume VI, pg. 21

[10] Ibid, vol. VI, pg. 21

[11] Ibid, Vol VI, pg.104

[12] Ibid, vol. VI, pg. 189

[13] Ibid, vol VI pg. 198

[14] Ibid, vol V, pg. 138

[15] Ibid, Vol. V, pg. 30

[16] Registro de atividades comerciais no município

[17] Comissão do Centenário, vol. VI, pg. 189

[18] in, O Parahyba, 19/12/1858

[19] in, Mercantil, 15/02/1879

[20] in, Mercantil, 31/07/1880

[21] in, Mercantil, 07-11/04/1888

[22] Ibid

[23] Este opúsculo foi adicionado em 2002 ao rever o artigo para trabalho com alunas do curso de Formação de Professoras, porém do texto original nada foi alterado, somente esta parte acrescentada.

sábado, 18 de dezembro de 2010

O OUTRO BARBOSA DE PETRÓPOLIS: ARTHUR BARBOSA

A história oficial e tradicional de Petrópolis destaca o papel efetivo de um Barbosa, o mordomo imperial, aquele que junto com D. Pedro e Koeler constituíram a “santíssima trindade” da fundação. Marco primordial das origens da localidade.
Este Barbosa foi a bandeira do século XIX, das articulações diplomáticas, administrativas e políticas. Um amante da organização de uma cidade para seu “Rei”.
O outro Barbosa, nenhum traço de parentesco advinha, segundo palavras de Áurea Maria de Carvalho, que constituirá uma pequena biografia para tomar no Instituto Histórico de Petrópolis.
Estamos falando de Arthur Alves Barbosa, nascido em Niterói, em meados a segunda metade do século XIX, mas precisamente em 17/05/1863. Segundo Áurea Barbosa haveria estudado no Colégio Briggs onde teve um jornal manuscrito em parceria com o celebre pintor Antonio Parreiras.
Alguns já diriam que muito antes em sua infância teria estudado em Petrópolis.
Segundo Áurea Barbosa teria sido transferido pelos pais para o Colégio São Bento. E em 1883 seguiu para cursar a Faculdade de Direito, em São Paulo, onde foi companheiro de “república estudantil” de Alberto Torres, Raul Pompéia e Osório Duque Estrada. Ela ainda assinala que Barbosa teria abandonado os estudos no terceiro ano, já Jerônimo Ferreira Alves, afirma em artigo que Barbosa teria concluído, pois para ser nomeado na época como foi escriturário da Tesouraria da Fazenda Pública, seria necessária a formação, pois era um cargo de grande relevo.
Barbosa também pertenceu na época ao Clube Republicano de São Paulo, o que conseqüente-mente lhe traria grande prestigio político junto aos demais companheiros.
Casou-se, em 3 de junho de 1889, com Leonor Campos Barbosa, porém não tiveram filhos, o que conduziu dona Leonor a manter constantemente compromisso com a benemerência e assistência social enquanto seu marido foi diretor e redator de jornal em Petrópolis.
Em São Paulo, Barbosa colaborou nos jornais DIÁRIO POPULAR, CORREIO PAULISTANO, DIÁRIO MERCANTIL. E juntamente com Olavo Bilac fundou a revista ilustrada VIDA SEMANÁRIA.
Exonerou-se do cargo em São Paulo e retornou a Niterói. Sendo logo designado funcionário do Tribunal da Relação e transferindo-se logo depois para a Secretaria do Interior.
No governo fluminense de Alberto Torres, seu ex-companheiro de “república”, dirigiu a 3a seção da secretaria de Obras Públicas e Indústria.
Transferindo-se para Petrópolis reiniciou sua carreira na imprensa, mais precisamente na GAZETA DE PETRÓPOLIS, que foi sucessora de O MERCANTIL. Foi também correspondente dos jornais cariocas GAZETA DE NOTÍCIAS, do qual Bilac destacava-se como colunista e O PAIZ, de Bocaiúva.
Fundada a TRIBUNA DE PETRÓPOLIS, sobre os ossos de O POVO, em 9 de outubro de 1902, Barbosa iniciou sua colaboração no dia 23 do mesmo mês, mais precisamente no quinto número, e utilizava o pseudônimo de Carlos Ferraz, que o marcou consideravelmente em épocas de grande atrito político principalmente com o grupo do general Quintino que dominava a política fluminense.
A TRIBUNA DE PETRÓPOLIS pertencia a António Martins de Oliveira, um leiloeiro público, que era também integrante do grupo político de Hermogênio Pereira da Silva e, Artur Barbosa, foi um de seus redatores, transformando-se posteriormente em um dos grandes próceres políticos deste mesmo grupo na cidade.
Em 1° de dezembro de 1903, ano de grande turbulência política tendo Petrópolis ainda como sede do governo do Estado, Arthur, assumiu a direção exclusiva do semanário, embora a Tribuna pertencesse a uma associação formada pelo próprio Hermogênio Silva, Barros Franco, Horácio Magalhães e Sá Earp. Mas que finalmente a 18 de fevereiro de 1906 passou à propriedade pessoal de Barbosa.
Iniciou-se então uma tirânica batalha de Barbosa para elevar a TRIBUNA ao relevo político que haveria de marcá-la na História da Imprensa fluminense.
Em 1° e janeiro de 1908 a Tribuna ganha edições diárias; em 1910 passa a ser ilustrada com fotogravuras; e passo à passo, ganha as publicações oficiais do município, sem qualquer concorrência.
Sua presença como diretor e redator granjeou imensa responsabilidade e respeito em toda à cidade. E seus contatos com representantes da imprensa do Rio de Janeiro, conduziram Barbosa a articular a criação do Circulo da Imprensa em 1916 com a companhia de Roberto d’Escragnolle, Maia Forte, J. Figueiredo e J. Bicalho.
Foi eleito com expressão para a Câmara Municipal chegando a exercer sua presidência de fevereiro de l9l3 a abril de l9l6.
Em 1917, Barbosa envolvera-se em uma discussão política violenta na Câmara Municipal, quando Joaquim Moreira, que foi prefeito e chegou a Ministro de Estado, perdeu a calma e sacou de uma arma na tentativa de alvejar o próprio Barbosa, sendo desarmado por companheiros. Os resultados eleitorais alteravam os ânimos destes políticos oposicionistas.
Em 1918, assumiu por quase dois meses a Prefeitura, em uma época turbulenta de crise social e sanitária por que passava não somente a cidade como o país.
Em 1922, durante o governo de Arthur Bernardes, Barbosa, critico contumaz e oposicionista, tendo sido eleito deputado duas vezes, foi preso e impedido de manifestar-se tanto politicamente como profissionalmente. Da prisão, arrenda a Tribuna aos companheiros, Alcindo Sodré e Carlos Rizzini, que a dirigiram de 1923 a 1925, quando livre dos processos e liberto, reassume a propriedade e a direção, lutando pelo objetivo da constituição da sede própria do jornal.
A 1° de janeiro de 1929 a Tribuna de Petrópolis passou a funcionar em Sede própria, à Rua /Alencar Lima, onde está até hoje. O terreno pertencia a Artur Barbosa e o prédio foi projeto de Osório Magalhães Sales, sendo construído com o patrocínio do comércio e da indústria petropolitanos e principalmente com a colaboração da população e de profissionais como operários da Leopoldina, pedreiros, eletricistas que em uma empreitada comunitária ergueram o que denominavam “patrimônio da cidade”.
Artur Barbosa completou seus 50 anos de imprensa em 1938, sendo que por questões de saúde, que desde a prisão sempre esteve abalada, em 3 de julho de 1943 vendeu a Tribuna de Petrópolis a uma Sociedade.
Foi escritor, tendo como obras publicadas; Rosal (crônicas literárias) e Amores de Deodato e Madalena (novelas).
Faleceu em Petrópolis, em 24 de novembro de 1947, logo após participar de uma última cerimô-nia à frente da Tribuna com todos os profissionais que ali trabalhavam.
Pronta para completar 150 anos, nossa imprensa iniciada com Sudré, não poderia dispensar nomes como o do próprio Arthur, o outro Barbosa.